quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Russia. Fazer guerra virou negócio.

Fazer guerra virou negócio
Foto: TASS

 

O vice-premiê russo Dmítri Rogózin afirmou recentemente que a comissão da indústria bélica está examinando a possibilidade de criar empresas militares privadas no país. 
 
Com a declaração, inicia-se a legalização de um mercado paralelo de serviços de guerra.
 
Apesar da falta de uma base na legislação russa para o desenvolvimento das EMP (empresas militares privadas), essas já operam há quase dez anos em zonas de conflito estratégicas.

A “Antiterror-Oriol”, por exemplo, foi criada por Serguêi Isaakovi, que foi um alto executivo da empresa de aviação russa “Vnukovskie Avialinii”. Com apoio do empresário Suleiman Kerimov, a EMP atua desde 2003 no Iraque, participando ocasionalmente de ações militares na proteção de propriedades e escolta de cargas.

A baixa competividade das EMPs russas, que são registradas “offshore”, está tanto na restrita oferta de serviços quanto nos baixos pagamentos de seus funcionários.

Enquanto as empresas russas oferecem serviços de uma companhia de segurança comum, os principais players do mercado há muito passaram à especialização, principalmente em consultoria e preparação especial.

A norte-americana “Academi” (como foi rebatizada a mundialmente famosa “Blackwater”), por exemplo, tem como principal nicho a preparação de militares dos EUA.

Em sua própria base de treinamento, a empresa organiza cursos de tiro, de combate corpo a corpo e de direção em situações de alto risco. O principal cliente da “Academi” é o governo dos Estados Unidos.

As EMPs israelenses, por sua vez, conquistaram uma posição sólida no mercado mundial em consultoria, ocupando-se da montagem de complexos sistemas de segurança e espionagem.

Já as britânicas estão se especializando em administração de riscos, logística e defesa de infraestrutura financeira.

A segurança e a organização de escoltas nas zonas de maior risco, em países instáveis, geralmente é entregue a subcontratadas que são escolhidas entre empresas menores.

Mesmo depois de legalizadas, as EMPs russas dificilmente terão sucesso no mercado monopolizado por britânicos e norte-americanos. Por enquanto, elas não podem concorrer em áreas de alta tecnologia, o que as leva a ter como principal atividade a contratação de mercenários.

Além disso, na atualidade, a Rússia não conduz campanhas militares no exterior e não precisa fortalecer a “retaguarda”, em forma de estruturas militarizadas privadas.

O governo está mais interessado em outros tipos de estruturas militares comerciais: os exércitos paramilitares corporativos e étnicos.

Os primeiros são representados pelos serviços de segurança de empresas industriais que atuam em regiões de conflito. O quadro de funcionários dessas instituições já ultrapassou o do FSB (Serviço Federal de Segurança, na sigla em russo).

A legalização dos empreendimentos militares de segurança permitiu o uso de mão de obra externa (“outsourcing”) por essas empresas quando necessárias habilidades especiais - por exemplo, para o combate a ataques de piratas. Nesse caso, a preparação dos funcionários da própria companhia não se justifica comercialmente.

Já as EMPs que contratam especialistas com perfil específico conseguem realizar a tarefa exigida com mais rapidez e eficiência. Além disso, elas podem reforçar legalmente o próprio potencial de segurança.

Junto com os serviços corporativos de segurança que contam com grande autonomia na atividade internacional, os exércitos paramilitares comerciais podem se mostrar necessários no território nacional.

Uma de suas funções poderia ser a segurança da zona de fronteira em regiões distantes, onde há evidente pressão migratória de fora, como no Extremo Oriente.

As vantagens comerciais e táticas da criação de EMPs, porém, não mudam o fato de que a privatização gradual da defesa, tanto dentro quanto fora do país, é uma bomba-relógio. Na verdade, sua legalização significa a ampliação do direito à violência, até então monopólio do poder estatal.

A legalização das EMPs vai acarretar inevitavelmente na intensificação da rotatividade do mercado paralelo de armas.

No futuro, as empresas militares privadas podem se transformar em verdadeiros agentes de política interna, tomando partido a favor de um ou outro “centro de forças”.

Em essência, isso pode estimular uma subsequente espiral de neofeudalismo na Rússia.

Nadejda Sokolova é pesquisadora no Centro de Análise de Problemas.

Publicado originalmente pelo portal Gazeta.Ru
 

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