“Até agora, todas as extinções eram
ocasionadas pelas forças do próprio universo e da Terra. A sexta está
sendo acelerada pelo próprio ser humano”
04/03/2012.
| Leonardo Boff |
Referimo-nos anteriormente ao fato de o ser humano, nos últimos tempos, ter inaugurado uma nova era geológica – o antropoceno
– era em que ele comparece como a grande ameaça à biosfera e como o
eventual exterminador de sua própria civilização. Há muito que biólogos e
cosmólogos estão advertindo a humanidade de que o nível de nossa
agressiva intervenção nos processos naturais está acelerando enormemente
a sexta extinção em massa de espécies de seres vivos.
Ela já está em
curso há alguns milhares de anos. Essas extinções, misteriosamente,
pertencem ao processo cosmogênico da Terra.
Nos últimos 540 milhões de
anos, ela conheceu cinco grandes extinções em massa, praticamente uma em
cada cem milhões de anos, exterminando grande parte da vida no mar e na
terra. A última ocorreu há 65 milhões de anos quando foram dizimados os
dinossauros, entre outros.
Até agora, todas as extinções eram ocasionadas pelas forças do
próprio universo e da Terra, a exemplo da queda de meteoros rasantes ou
de convulsões climáticas. A sexta está sendo acelerada pelo próprio ser
humano. Sem a presença dele, uma espécie desaparecia a cada cinco anos.
Agora, por causa de nossa agressividade industrialista e consumista,
multiplicamos a extinção em cem mil vezes, diz-nos o cosmólogo Brian
Swimme em entrevista recente no Enlighten Next Magazin, n.19.
Os dados são estarrecedores: Paul Ehrlich, professor de ecologia em
Standford calcula em 250.000 espécies exterminadas por ano, enquanto
Edward O. Wilson de Harvard dá números mais baixos, entre 27.000 e
100.000 espécies por ano (R. Barbault, Ecologia geral 2011, p.318).
O ecólogo E. Goldsmith da Universidade da Georgia afirma que a
humanidade ao tornar o mundo cada vez mais empobrecido, degradado e
menos capaz de sustentar a vida, tem revertido em três milhões de anos o
processo da evolução. O pior é que não nos damos conta dessa prática
devastadora nem estamos preparados para avaliar o que significa uma
extinção em massa. Ela significa simplesmente a destruição das bases
ecológicas da vida na Terra e a eventual interrupção de nosso ensaio
civilizatório e quiçá até de nossa própria espécie. Thomas Berry, o pai
da ecologia americana, escreveu: “Nossas tradições éticas sabem lidar
com o suicídio, o homicídio e mesmo com o genocídio, mas não sabem lidar
com o biocídio e o geocídio”(Our Way into the Future, 1990 p.104).
Podemos desacelerar a sexta extinção
em massa, já que somos seus principais causadores? Podemos e devemos.
Um bom sinal é que estamos despertando a consciência de nossas origens
há 13,7 bilhões de anos e de nossa responsabilidade pelo futuro da vida.
É o universo que suscita tudo isso em nós porque está a nosso favor e
não contra nós. Mas ele pede a nossa cooperação já que somos os maiores
causadores de tantos danos. Agora é a hora de despertar enquanto há
tempo.
O primeiro que importa fazer é renovar o pacto natural entre Terra e
Humanidade. A Terra nos dá tudo o que precisamos. No pacto, a nossa
retribuição deve ser o cuidado e o respeito pelos limites da Terra. Mas,
ingratos, lhe devolvemos com chutes, facadas, bombas e práticas
ecocidas e biocidas.
O segundo é reforçar a reciprocidade ou a mutualidade: buscar aquela
relação pela qual entramos em sintonia com os dinamismos dos
ecossistemas, usando-os racionalmente, devolvendo-lhes a vitalidade e
garantindo-lhes sustentabilidade. Para isso necessitamos nos reinventar
como espécie que se preocupa com as demais espécies e aprende a conviver
com toda a comunidade de vida. Devemos ser mais cooperativos que
competitivos, ter mais cuidado que vontade de submeter e reconhecer e
respeitar o valor intrínseco de cada ser.
O terceiro é viver a compaixão não só entre os humanos, mas para com
todos os seres, compaixão como forma de amor e cuidado. A partir de
agora eles dependem de nós se vão continuar a viver ou se serão
condenados a desaparecer. Precisamos deixar para trás o paradigma de
dominação que reforça a extinção em massa e viver aquele do cuidado e do
respeito que preserva e prolonga a vida. No meio do antropoceno, urge
inaugurar a era ecozóica que coloca o ecológico no centro. Só assim há
esperança de salvar nossa civilização e de permitir a continuidade de
nosso planeta vivo.
FONTE:http://congressoemfoco.uol.com.br/opiniao/colunistas/como-enfrentar-a-sexta-extincao-em-massa/
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