José Monserrat Filho
Chefe da Assessoria de Cooperação Internacional
da Agência Espacial Brasileira
Chefe da Assessoria de Cooperação Internacional
da Agência Espacial Brasileira
O novo
embaixador da China no Brasil, Li Jinzhang, ofereceu nesta quarta-feira
sua primeira recepção, para se apresentar ao mundo diplomático, político
e empresarial brasileiro, e também para apresentar o novo adido militar
chinês, o jovem General de Brigada Wang Xiaojun.
O
embaixador Li Jinzhang, de 58 anos, assumiu o cargo em 23 de janeiro
último. Antes de vir para o Brasil, era vice-ministro das Relações
Exteriores e aqui manterá o status de vice-ministro - nível atribuído
hoje pelo governo chinês a apenas 12 países. Serviu em Cuba de 1976 a
1980 e de 1990 a 1993, e na Nicarágua de 1988 a 1990. Foi embaixador no
México de 2001 a 2003. De volta à China, trabalhou nos setores ligados
às relações com a América Latina. Daí seu fluente espanhol. Em 2006,
assumiu o posto de vice-ministro, o terceiro na hierarquia da
chancelaria, depois do ministro e do vice-ministro executivo. Ele
presidiu, pelo lado chinês, duas reuniões do Diálogo Estratégico
Brasil-China (sobre a situação internacional), próprias para diplomatas
com nível de vice-ministros, uma com o embaixador Roberto Jaguaribe e a
outra com a embaixadora Maria Edileuza Fontenele Reis.
Em seu
discurso na recepção desta quarta-feira ele comemorou, com muito bom
humor, o alto nível de cooperação alcançado entre seu país e o Brasil,
que tende a crescer cada vez mais. Desde 2009, a China é o maior
parceiro comercial do Brasil. A ideia comum é ampliar em grande escala a
cooperação em áreas essenciais de ciência, tecnologia e inovação, como
nanotecnologia, biotecnologia, computação e tecnologias da informação e
comunicação, e políticas de inovação. Universidades chinesas deverão
receber estudantes brasileiros com base no Programa Ciência sem
Fronteiras.
Cogita-se
de colaboração em áreas de considerável potencial, como mudanças
climáticas, energia nuclear, recursos hídricos, engenharias, ciências
dos materiais e recursos minerais - a China, como se sabe, é grande
compradora de minerais brasileiros; estima-se que ela logo responderá
por 50% do consumo de metais importantes como cobre, zinco, alumínio,
níquel, estanho e chumbo; nos últimos dez anos, seu consumo desses
minérios pulou de 10% para 40%.
Brasil e
China também deverão trabalhar juntos na área de bambu, em pesquisa
científica, tecnologia industrial e agregação de valor. Será criado o
Centro Sino-Brasileiro de Tecnologia de Bambu, que certamente trará bons
frutos à nossa economia.
E a
cooperação espacial, como fica? Tudo começou por aí, na segunda metade
dos anos 80, com a iniciativa pioneira do então ministro da Ciência e
Tecnologia, Renato Archer. Já temos o programa conjunto de satélites de
recursos naturais da Terra, que já lançou o CBERS-1, CBERS-2 e CBERS-2B,
e deve lançar o CBERS-3 em novembro próximo. Mas a intenção é ir muito
mais além.
Para tanto, surgiu a proposta de elaborar um Plano Decenal de
Cooperação Espacial, iniciativa ambiciosa, mas perfeitamente viável e
necessária, aprovada pelas altas instâncias dos dois países em 2011. Em
fevereiro deste ano, ficou acertado criar um Grupo de Trabalho Técnico
para preparar a proposta brasileira do plano, que, com certeza, deverá
incluir o desenvolvimento dos futuros satélites da série CBERS e outros
satélites, incluindo potenciais aplicações e técnicas de calibração de
sensores e geoprocessamento, coordenado pela Agência Espacial Brasileira
e pela Administração Nacional Espacial da China (CNSA).
Urge agora
efetivar essa providência. Em junho próximo, o primeiro-ministro da
China, Wen Jiabao, virá ao Brasil participar da Rio+20 e avistar-se com
nossas autoridades. Seria de todo conveniente que um primeiro esboço do
plano ficasse pronto por essa época. Há que acelerar o passo.
Eis algumas outras ações que poderão integrar o plano:
-
Fortalecer a colaboração dos dois países, baseada no trabalho conjunto
entre Inpe CRESDA, para aumentar a distribuição internacional dos dados
dos satélites CBERS-03 e CBERS-04, com novas estações terrestres de
recepção de seus dados, visando ampliar as aplicações ambientais de
monitoramento dos ecossistemas terrestres e outras aplicações de
interesse global.
-
Implementar o Programa CBERSs for Africa, colocando em prática os
Memorandos de Entendimento para a recepção de imagens do CBERS-3,
assinados com a África do Sul, a Espanha (para a implantação da Estação
terrestre de Maspalomas, nas Ilhas Canárias) e Egito (para a implantação
da Estação de Aswan).
- Elaborar e
assinar o Memorando de Entendimento entre MCTI e CMA (Administração
Meteorológica da China) destinado a criar o Centro Brasil-China de
Pesquisa Meteorológica por Satélite, tendo como agências implementadoras
o Inpe e o NSMC (Centro Nacional de Satélites Meteorológicos da CMA).
-
Fortalecer o trabalho conjunto entre Inpe e CEODE (Centro de Observação
da Terra e da Geoinformação Digital) no mapeamento de aplicações para a
agricultura; no desenvolvimento de acesso aberto e gratuito de
ferramentas computacionais; na modelagem ambiental; nos sistemas de
monitoramento de desastres naturais e tecnologia espacial para o estudo
das mudanças ambientais globais.
-
Fortalecer a colaboração entre Inpe e CSSAR (Centro de Ciência Espacial e
de Pesquisa Aplicada), com a realização de observações conjuntas e
estudos da ionosfera e atmosfera média e alta em baixas latitudes.
- Dar
continuidade ao acordo que estabelece o apoio das estações terrestres do
Brasil aos voos tripulados das missões Shenzhou, em colaboração com o
Centro Chinês de Lançamento e Rastreamento (CLTC - China
LaunchandTracking Center).
Essa lista, claro, poderá ser mudada e/ou enriquecida com novos projetos. O importante a frisar é que o Plano Decenal é oportunidade imperdível, que deve ser aproveitada com o máximo empenho de parte a parte.
Essa lista, claro, poderá ser mudada e/ou enriquecida com novos projetos. O importante a frisar é que o Plano Decenal é oportunidade imperdível, que deve ser aproveitada com o máximo empenho de parte a parte.
Tive a
grata chance de conversar a respeito com o embaixador Li Jinzhang, logo
após o seu discurso na recepção. Ele concordou sem pestanejar que esse é
um assunto de suma relevância para o futuro das relações
sino-brasileiras. E também para o presente - eu ousaria acrescentar.
FONTE: http://www.defesanet.com.br/brasilchina/noticia/5719/O-Plano-Decenal-de-Cooperacao -Espacial-Brasil-China
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