| Texto de Cynara Menezes. |
| (não sei quem é o autor desta foto, mas acho perfeita para este artigo; reparem na camiseta do mendigo) |
Publiquei este artigo em novembro de 2011, bem antes, portanto, do julgamento do mensalão. Acredito que continue válido para os dias que vivemos.
***
Ser gauche na vida
Li no jornal sobre uma entrevista de Carlos Drummond de Andrade em
que ele dizia: “a esquerda, até agora, no Brasil, tem sido a parte mais
errada da opinião pública, a que mais caiu em erros”.
O poeta querido
afirmava abominar a direita, mas defendia a tese de que é possível “não
ser partidário da esquerda e ter um pensamento consequente, que é o
pensamento socialista, que não é propriedade da esquerda”.
Enfim: ser
socialista não é propriedade da esquerda. Uau. Essa frase mexeu comigo.
O que o autor dos versos “Vai, Carlos! ser gauche na vida”
quis dizer com isso? A entrevista foi dada na época da campanha das
Diretas Já, em 1984. Drummond, aliás, era contra. Ele chegou a apoiar o
golpe militar em 1964, depois se arrependeria ao ver que a coisa não era
para o seu “paladar”.
Ou seja, o poeta mineiro possuía um certo
conservadorismo, mas detestava a direita, por um lado; por outro,
desprezava a esquerda, mas admirava o socialismo. É possível?
Fica claro para mim que Drummond manifestava desagrado com o que a
esquerda se tornara ao longo do tempo. Não se pode acusar a direita de
haver queimado o filme da esquerda: a própria esquerda no poder se
encarregou de fazer seu marketing negativo.
Sob a égide do “socialismo”,
surgiram ditaduras, se perseguiram opositores, se restringiram
liberdades individuais, houve censura, tortura e corrupção. E, mais
grave, não se sanaram as diferenças sociais.
O poeta devia pensar: como
estes “esquerdistas” se atrevem a usar o nome do socialismo em vão? Se
vivesse hoje em dia, Drummond não pensaria diferente: a “esquerda”
continua blasfemando contra o socialismo. São poucos os reais
esquerdistas representando o povo dentro dos partidos ditos de esquerda.
Esquerdismo no sentido de ser progressista e um pouco além.
Ser de esquerda é:
- não roubar nem deixar roubar;
- é ser contra a
exploração do homem pelo homem e de países por outros países;
- é ser a
favor da igualdade entre raças e gêneros;
- do Estado laico;
- é ser contra o
preconceito e a intolerância;
- é ser a favor da natureza;
- de que o povo
coma bem e direito;
- da justiça social;
- é ser a favor de uma nova
política para drogas e aborto;
- da reforma agrária;
- da moradia,
- da
educação e da saúde de qualidade para todos.
Ser de esquerda é ser um
defensor incorruptível da paz, da democracia e da liberdade. E ser de
esquerda é, sim, dar menos importância ao dinheiro e mais à felicidade.
(Que me perdoem os bons ricos, deles será o reino dos Céus.)
Vejo esta manifestação agora em Wall Street e sua interessante
bandeira dos 99% que não têm nada contra o 1% que tem tudo, contra a
ganância dos especuladores e dos bancos, as grandes corporações
exploradoras e contra os corruptos.
Pode ser minúsculo e ingênuo, não
importa, mas é um movimento de esquerda, da verdadeira esquerda
revolucionária, agora pacífica. É uma luta de Davi e Golias. Garotos com
cartazes na mão contra o capitalismo, a fome, a opressão, as
desigualdades, a injustiça.
Não era isso que pregava o socialismo em
seus utópicos primórdios? Mas tenho certeza que, se alguém chegar para
muitos daqueles guris e chamá-los “esquerdistas”, eles irão torcer o
nariz e fazer um muxoxo igual a Drummond.
A queda do muro de Berlim derrubou o socialismo naquele momento, mas
se pelo menos suas concepções teóricas ainda são respeitadas, não se
pode dizer a mesma coisa do esquerdismo. Hoje, o capitalismo também
começa a ruir a olhos vistos, está fazendo água, não é “perfeito” como
os neoliberais apregoavam.
As guerras que os países capitalistas
promovem já não são suficientes para disfarçar o fracasso do sistema em
si. Por uma coincidência cósmica, de novo é The Wall dando o pontapé de
partida. The Wall Street. Claro que a derrubada do muro foi
televisionada 24 horas por dia enquanto a ocupação de Wall Street é
ignorada pela mídia. Mas quem é que esperava moleza?
Esta grande crise econômica que se avizinha deveria ser uma hora e
tanto para repensar o “ser de esquerda”, no mundo e no Brasil. Se
estiverem interessados, os que se dizem de esquerda, os que se sentem de
esquerda e os que amam a esquerda podiam aproveitar a oportunidade para
rever bandeiras, ideais, discursos, projetos e sobretudo rever a
prática do que é a “esquerda”. Em vez de continuar a macular a
expressão, torná-la digna de se associar ao termo “socialismo”.
Vinte
anos após o fim da União Soviética, a palavra “esquerda” segue em baixa
no mundo. Entre os direitistas, tanto faz que pensem assim, mas o mais
triste é que ela está em baixa mesmo entre os que são de esquerda e nem
sabem disso. Como os poetas.
(artigo originalmente publicado no site de CartaCapital em 16/11/2011)
Publicado em 8 de janeiro de 2013.
* LINK ORIGINAL DESTA MATÉRIA: http://socialistamorena.cartacapital.com.br/ser-gauche-na-vida/
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