O ex-presidente, depois da última sessão de radioterapia a que se submeteu, em fevereiro.
NA PRIMEIRA ENTREVISTA APÓS O DESAPARECIMENTO DO CÂNCER, LULA
FALA DO MEDO DA MORTE E AFIRMA QUE AGORA QUER EVITAR UMA AGENDA
‘ALUCINADA’.
Por Cláudia Collucci e Mônica Bergamo, na “Folha de São Paulo”
“O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou quinta-feira (29) que
teve mais medo de perder a voz do que de morrer após a descoberta do
câncer na laringe. “Se eu perdesse a voz, estaria morto.”
Um dia depois da notícia de que o tumor desapareceu, ele recebeu a
“Folha” para uma entrevista exclusiva, num quarto do hospital Sírio
Libanês, em São Paulo, onde faz sessões de fonoaudiologia.
Lula comparou a uma “bomba de Hiroshima” o tratamento que fez, com sessões de químio e radioterapia.
Ele emocionou-se ao lembrar da luta do vice-presidente José Alencar
(1931-2011), que morreu de câncer há exatamente um ano. “Hoje é que eu
tenho noção do que o Zé Alencar passou.”
Quase 16 quilos mais magro e com a voz um pouco mais rouca que o normal,
o ex-presidente ainda sente dor na garganta e diz que sonha com o dia
em que poderá comer pão “com a casca dura”.
A entrevista foi acompanhada por Roberto Kalil, seu médico pessoal e
“guru”, pelo fotógrafo Ricardo Stuckert e pelo presidente do Instituto
Lula, Paulo Okamotto.
-Folha – Como o Sr. está?
Luiz Inácio Lula da Silva – O câncer está resolvido
porque não existe mais aqui [aponta para a garganta]. Mas eu tenho que
fazer tratamento por um tempo ainda. Tenho que manter a disciplina para
evitar que aconteça alguma coisa. Aprendi que tanto quanto os médicos,
tanto quanto as injeções, tanto quanto a quimioterapia, tanto quanto a
radioterapia, a disciplina no tratamento, cumprir as normas que tem que
cumprir, fazer as coisas corretamente, são condições básicas para a
gente poder curar o câncer.
-Foi difícil abrir mão…
Hoje é que eu tenho noção do que o Zé Alencar passou. [Fica com a voz
embargada e os olhos marejados]. Eu, que convivi com ele tanto tempo,
não tinha noção do que ele passou. A gente não sabe o que é pior, se a
quimioterapia ou a radioterapia. Uns dizem que é a químio, outros que é a
rádio. Para mim, os dois são um desastre. Um é uma bomba de Hiroshima
e, o outro, eu nem sei que bomba é. Os dois são arrasadores.
-O Sr. teve medo?
A palavra correta não é medo. É um processo difícil de evitar, não tem
uma única causa. As pessoas falam que é o cigarro [que causa a doença],
falam que é um monte de coisa que dá, mas ‘tá’ cheio de criancinha que
nasce com câncer e não fuma.
-Qual é a palavra correta?
A palavra correta… É uma doença que eu acho que é a mais delicada de
todas. É avassaladora. Eu vim aqui com um tumor de 3 cm e de repente
estava recebendo uma Hiroshima dentro de mim. [Em alguns momentos] Eu
preferiria entrar em coma.
-Kalil [interrompendo] - Pelo amor de Deus, presidente! Em coma?
Eu falei para o Kalil: eu preferiria me trancar num freezer como um
‘carpaccio’. Sabe como se faz ‘carpaccio’? Você pega o contrafilé, tira a
gordura, enrola a carne, amarra o barbante e coloca o contrafilé no
freezer e, quando ele está congelado, você corta e faz o carpaccio. A
minha vontade era me trancar no freezer e ficar congelado até…
-Sentia dor?
Náusea, náusea. A boca não suporta nada, nada, nada, nada. A gente
ouvindo as pessoas [que passam por um tratamento contra o câncer]
falarem não tem dimensão do que estão sentindo.
-Teve medo de morrer?
Eu tinha mais preocupação de perder a voz do que de morrer. Se eu
perdesse a voz, estaria morto. Tem gente que fala que não tem medo de
morrer, mas eu tenho. Se eu souber que a morte está na China, eu vou
para a Bolívia.
-O Sr. acredita que existe alguma coisa depois da morte?
Eu acredito. Eu acredito que entre a vida que a gente conhece [e a
morte] há muita coisa que ainda não compreendemos. Sou um homem que
acredita que existam outras coisas que determinam a passagem nossa pela
Terra. Sou um homem que acredita, que tem muita fé.
-Mesmo assim, teve um medo grande?
Medo, medo, eu vivo com medo. Eu sou um medroso. Não venha me dizer:
‘Não tenha medo da morte’. Porque eu me quero vivo. Uma vez ouvi meu
amigo [o escritor] Ariano Suassuna dizer que ele chama a morte de
Caetana e que, quando vê a Caetana, ele corre dela. Eu não quero ver a
Caetana nem…
-Qual foi o pior momento nesse processo?
Foi quando eu soube. Vim trazer a minha mulher para um exame e a Marisa e
o Kalil armaram uma arapuca e me colocaram no tal de PET [aparelho que
rastreia tumores]. Eu tinha passado pelo otorrino, o otorrino tinha
visto a minha garganta inflamada.
Eu já estava há 40 dias com a garganta inflamada e cada pessoa que eu
encontrava me dava uma pastilha. No Brasil, as pessoas têm o hábito de
dar pastilha para a gente. Não tinha uma pessoa que eu encontrasse que
não me desse uma pastilha: ‘Essa aqui é boa, maravilhosa, essa é
melhor’. Eu já tava cansado de chupar pastilha.
No dia do meu aniversário, eu disse: ‘Kalil, vou levar a Marisa para
fazer uns exames’. E viemos para cá. O rapaz fez o exame, fez a
endoscopia, disse que estava muito inflamada a minha garganta. Aí,
inventaram essa história de eu fazer o PET. Eu não queria fazer, eu não
tinha nada, pô. Aí eu fui fazer depois de xingar muito o Kalil.
Depois, fui para uma sala onde estava o Kalil e mais uns dez médicos. Eu
senti um clima meio estranho. O Kalil estava com uma cara meio de
chorar. Aí eu falei: ‘Sabe de uma coisa? Vocês já foram na casa de
alguém para comunicar a morte? Eu já fui. Então falem o que aconteceu,
digam!’ Aí me contaram que eu tinha um tumor. E eu disse: ‘Então vamos
tratar’.
-Existia a possibilidade de operar o tumor, em vez de fazer o tratamento que o senhor fez.
Na realidade, isso nem foi discutido. Eles chegaram à conclusão de que
tinha que fazer o que tinha que fazer para destruir o bicho
[quimioterapia seguida de radioterapia], que era o mais certo. Eu disse:
‘Vamos fazer’.
O meu papel, então, a partir dessa decisão, era cumprir, era obedecer,
me submeter a todos os caprichos que a medicina exigia. Porque eu sabia
que era assim. Não pode vacilar. Você não pode [dizer]: ‘Hoje eu não
quero, não ‘tô’ com vontade’.
-O senhor rezava, buscou ajuda espiritual?
Eu rezo muito, eu rezo muito, independentemente de estar doente.
-Fez alguma promessa?
Não.
-Existia também uma informação de que o senhor procurou ajuda do médium João de Deus.
Eu não procurei porque não conhecia as pessoas, mas várias pessoas me
procuraram e eu sou muito agradecido. Várias pessoas vieram aqui, ainda
hoje há várias pessoas me procurando. E todas as que me procurarem eu
vou atender, conversar, porque eu acho que isso ajuda.
-E como será a vida do Sr. a partir de agora? Vai seguir com suas palestras?
Eu não quero tomar nenhuma decisão maluca. Eu ainda estou com a garganta
muito dolorida, não posso dizer que estou normal porque, para comer,
ainda dói.
Mas acho que entramos na fase em que, daqui a alguns dias, eu vou
acordar e vou poder comer pão, sem fazer sopinha. Vou poder comer pão
com aquela casca dura. Vai ser o dia!
Eu vou tomando as decisões com o tempo. Uma coisa eu tenho a certeza: eu
não farei a agenda que já fiz. Nunca mais eu irei fazer a agenda
alucinante e maluca que eu fiz nesses dez meses desde que eu deixei o
governo. O que eu trabalhei entre março e outubro de 2011… Nós visitamos
30 e poucos países.
Eu não tenho mais vontade para isso, eu não vou fazer isso. Vou fazer
menos coisas, com mais qualidade, participar das eleições de forma mais
seletiva, ajudar a minha companheira Dilma [Rousseff] de forma mais
seletiva, naquilo que ela entender que eu possa ajudar. Vou voltar mais
tranquilo. O mundo não acaba na semana que vem.
-Quando é que o senhor começa a participar da campanha de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo?
Eu acho o Fernando Haddad o melhor candidato. São Paulo não pode
continuar na mesmice de tantas e tantas décadas. Eu acho que ele vai
surpreender muita gente. E desse negócio de surpreender muita gente eu
sei. Muita gente dizia que a Dilma era um poste, que eu estava louco,
que eu não entendia de política. Com o Fernando Haddad será a mesma
coisa.
-O senhor vai pedir à senadora Marta Suplicy para entrar na campanha dele também?
Eu acho que a Marta é uma militante política, ela está na campanha.
-Tem falado com ela?
Falei com ela faz uns 15 dias. Ela me ligou para saber da saúde. Eu disse que, quando eu sarar, a gente vai conversar um monte.
-E em 2014? O senhor volta a disputar a Presidência?
Para mim, não tem 2014, 2018, 2022. Deixa eu contar uma coisa para
vocês: eu acabei de deixar a Presidência da República, tem apenas um ano
e quatro meses que eu deixei a Presidência.
Poucos brasileiros tiveram a sorte de passar pela Presidência da forma
exitosa com que eu passei. E repetir o que eu fiz não será tarefa fácil.
Eu sempre terei como adversário eu mesmo. Para que é que eu vou
procurar sarna para me coçar se eu posso ajudar outras pessoas, posso
trabalhar para outras pessoas?
E depois é o seguinte: você precisa esperar o tempo passar. Essas coisas
você não decide agora. Um belo dia você não quer uma coisa, de repente
se apresenta uma chance, você participa.
Mas a minha vontade agora é ajudar a minha companheira a ser a melhor
presidenta, a trabalhar a reeleição dela. Eu digo sempre o seguinte: a
Dilma só não será candidata à reeleição se ela não quiser. É direito
dela, constitucional, de ser candidata a presidente da República. E eu
terei imenso prazer de ser cabo eleitoral.”
FONTES: Entrevista realizada por Cláudia Collucci e Mônica Bergamo, na “Folha de São Paulo” (
http://www1.folha.uol.com.br/poder/1069313-sem-voz-estaria-morto-diz-lula-em-entrevista-exclusiva.shtml).
Também postada por Luis Favre em seu blog (
http://blogdofavre.ig.com.br/2012/03/recebi-uma-bomba-de-hiroshima-dentro-de-mim/).
http://democraciapolitica.blogspot.com.br/2012/03/entrevista-com-lula-na-folha.html