domingo, 16 de junho de 2013

Operação Vinagre V - Secretário de Segurança de SP quer reunião com liderança do Movimento Passe Livre.

Fernanda Cruz - Repórter da Agência Brasil.

 

São Paulo – O secretário da Segurança Pública, Fernando Grella Vieira, informou hoje (16), em entrevista coletiva, que pretende fazer uma reunião com as lideranças do Movimento Passe Livre, responsável pelas manifestações que vêm ocorrendo na capital contra o aumento da tarifa do transporte público.

Grella convocou a reunião com os líderes para amanhã (17), às 10h, na secretaria. Ele disse que o objetivo maior do encontro é definir antecipadamente o percurso que será feito durante o próximo protesto, marcado também para amanhã, às 17h, a partir do Largo da Batata, na zona oeste da capital. “A Polícia Militar tem condições de planejar o trajeto com algumas horas de antecedência, para reduzir o incômodo e proteger os manifestantes”, disse.


Ele enfatizou que não quer uma repetição dos fatos ocorridos na semana passada, como o intenso confronto entre policiais e manifestantes, resultando em pessoas feridas, inclusive da imprensa. Durante a entrevista, um grupo de fotógrafos pediu ao secretário medidas para que não sejam atingidos, como ocorreu na última quinta-feira (13). O grupo sugeriu o uso de um colete com identificação de imprensa, proposta que foi aceita por Grella.

 

O secretário comentou também críticas de que policiais não estariam utilizando a tarjeta com identificação, atitude que impede uma punição caso sejam flagrados cometendo excessos contra a população. “[Essa] conduta será responsabilizada administrativamente, nenhum [policial] está autorizado a tirar [a tarjeta]”, disse. Grella acrescentou que espera uma manifestação pacífica e que o uso da Tropa de Choque não seja necessário.

Edição: Graça Adjuto

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Dilma: estamos preparando o país para os próximos vinte anos.

Créditos da Foto - Jornal GGN.
O ar aparenta um certo cansaço. Mas os olhos brilham e Dilma Rousseff é capaz de discorrer por duas horas sem perder o pique sobre seu tema preferido: o Brasil.
 
Garante que no segundo semestre o país testemunhará o deslanche das concessões e parcerias público-privadas. Entusiasma-se ao falar da construção naval, da lei dos portos e de como a reserva do campo de Libra impactará o país.
 
Criaram-se lendas de que Dilma irrita-se com críticas, a ponto de romper com o crítico. Não é o que transpareceu na conversa de duas horas, na quinta-feira no Palácio do Planalto. Mostrou sua visão de país e informou ter alertado alguns ministros mais suscetíveis sobre a importância de se dar atenção às críticas fundamentadas.
 
Um dos interlocutores de Dilma garante que a imagem da “gerentona” não faz justiça a ela. Segundo ele, poucos presidentes na história tiveram a visão estratégica de futuro de Dilma. “Ela sempre pensa no país daqui a 10, 15 anos”, explica o interlocutor. “Não se inebria com resultados imediatos”.
 
Tem pressa. Entende que presidentes passam, o país fica. E quer deixar o máximo possível de sementes plantadas. Talvez explique o fato de empurrar conflitos com a barriga, ceder em muitos pontos, não parar sequer para colocar o Ministério em ordem, por não ter tempo a perder para colocar em pé um trabalho que – segundo sua mesma expectativa – só começará a frutificar daqui a dez, quinze anos.
 
E é o que talvez explique a condescendência imprudente com seu Ministério.
 
Na hora da operação, esbarra na fragilidade de alguns Ministros e no acomodamento de outros. Aí, é obrigada a perder parte relevante do tempo corrigindo problemas operacionais. O álibi “Dilma truculenta” é invocada por muitos Ministros para justificar sua própria mediocridade e apatia.
 
A entrevista revela uma presidente com plena clareza sobre os caminhos estratégicos do país. Mas, para consolidar sua obra, falta a freada de arrumação, uma mudança maiúscula no Ministério, uma reestruturação no modo de gerenciar os Ministros – agrupando núcleos de Ministérios em torno de algumas figuras-chave, que possam ser a Dilma da Dilma -, uma reformulação na articulação política. E determinar aos seus Ministros que corram riscos, busquem iniciativas, demitindo os que se dizem com medo de cara feia.
 
Ao ouvir o nome do jornal GGN, pergunta a relação com o Grupo Gente Nova (GGN), organização de lideranças jovens cristãs, que vicejou em Minas nos anos 60. O berço do GGN foi Belo Horizonte e, através das freirinhas do Sion, Dilma e outros jovens faziam trabalho social em bairros pobres, discutiam política e o Concílio Vaticano 2 de João 23. O GGN transbordou para Poços de Caldas, também através de freirinhas - na caso, as dominicanas.
 
Dilma recorda desses tempos, compara com o que seu neto encontrará pela frente. E dá o mote para o início da entrevista.
 
O novo país
 
GGN – Que país a senhora pretende que nossa geração entregue para a de nossos netos?
 
Dilma -  Está vindo por aí uma nova geração totalmente diferente, que encontrará um país totalmente diferente do que nossa geração recebeu. Nós vamos transformar o Brasil em um país rico, de classe média. Pessoalmente acho que essa herança ficará não apenas eliminando a pobreza, mas conseguindo uma educação de altíssima qualidade. Só a educação permite um ganho permanente, irreversível. Por isso defendo os royalties para educação.
 
GGN – Qual a próximo ciclo da economia?
 
Dilma – A etapa do combate à miséria absoluta está prestes a terminar. Hoje em dia, existe o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida, o apoio ao microempreendedor, o Luz Para Todos. Essa foi a primeira grande leva de transformações e só tem dez anos. Os frutos ainda nem começaram a aparecer. A segunda grande leva será a busca da competitividade.
 
GGN – E as frentes da próxima batalha?
 
Dilma – A principal é a Educação, que serve ao lado social e à competitividade. Há um amplo investimento no Prouni (Programa Universidade para Todos), no FIES (Financiamento Estudantil), na ampliação das escolas técnicas, de universidades e novos campis. E na interiorização da educação. Levar a educação para o interior muda padrão de vida de toda uma região.
 
Os analistas ainda não se deram conta da extensão do trabalho em educação. Financiamos R$ 1,5 bilhões para o Senai ampliar a formação de mão de obra. A Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego) da CNI (Confederação Nacional da Indústria) irá formar 8 milhões de trabalhadores até 2014. O MEC (Ministério da Educação) está entrando com recursos para formação de técnico para nível médio.
 
A parte relevante é o treinamento de mão de obra com vários escalões, até chegar à Tereza Campello (do Ministério do Desenvolvimento Social). Há várias turmas de filhos do Bolsa Família se formando. Já chegam a um milhão de alunos.
 
Essa mesma parceria do Senai estamos fazendo com o Senar (da Agricultura) e com o Senac (do Comércio). O Senai e o Senar são os parceiros mais ativos.
 
O mais interessante é a quantidade de mulheres que saem do Bolsa Família e se tornam operárias especializadas. Na cerimônia de formação dos alunos do BF, a oradora da turma era uma moça que se tornou eletricista.
 
Os marcos regulatórios
 
GGN – E a outra frente?
 
Dilma - A segunda frente são os novos marcos regulatórios. No período Lula houve o marco do setor elétrico. Depois, o pre-sal. Como se sabia onde havia petróleo, com risco menor de prospecção, mudou-se a exploração para o sistema de partilha, para o país beneficiar-se o máximo possível da nova riqueza.
 
GGN – E a Lei dos Portos?
 
Dilma – O marco regulatório dos portos é fundamental. No lançamento afirmei que seria a segunda abertura dos portos. A primeira, de Dom João VI, foi para o comércio com as nações amigas. A segunda, agora, é a abertura para o investimento privado. Há a necessidade de um padrão de eficiência compatível com a sofisticação industrial, agrícola e a extração de minérios.
 
No caso dos portos, ampliar os terminais de uso privado, deixar quem quiser exportar através de container, sem reserva de mercado, e ampliar a capacidade de comunicação do país com o exterior.
 
Na sequencia, o desafio será priorizar a cabotagem (navegação da costa).
 
Um de nossos principais atos foi o de desobstruir a infraestrutura. Todo mundo tem o direito de passar. Para não penalizar quem faz a infra, quem quiser passar paga o mesmo que o concessionária cobra de si próprio.
 
A expansão dos portos abrirá um novo mundo, permitindo a integração com ferrovias, com o transporte aquaviário.
 
Hoje em dia, temos condições de planejar estrutura ferroviária, porque os portos são importantes, porque rodovias estão sendo duplicadas.  
 
Eisenhower, quando assume governo norte-americano, duplicou todas as estradas. Chefiou as Forças Aliadas na Segunda Guerra. Planejou atravessar a França para chegar e Berlim em determinado prazo. O planejamento foi em cima da experiência antiga com as estradas francesas, estreitas. Quando entrou nas autobans, a chegada em Berlim foi abreviada. Aí ele entendeu a importância das autoestradas. Levou 15 anos para duplicar as estradas norte-americanas. Nós duplicamos os principais eixos.
 
O salto agrícola
 
GGN – Resolve-se, com isso, o problema do transporte das safras?
 
Dilma - Ninguém notou muito, mas lançamos recentemente uma política fundamental, a de armazenagem. Precisamos de 65 milhões de toneladas de capacidade instalada de armazéns. No último Plano de Safras, foram destinados R$ 136 bilhões para a agricultura comercial e R$ 21 bi para a familiar. Foram colocados R$ 5,5 bilhões, a 3% ao ano de juros e prazos de 15 anos, para a ampliação da rede de armazéns.
 
Ao mesmo tempo, será recriada uma estrutura de assistência técnica e extensão rural.
 
A Embrapa é uma instituição voltada para a pesquisa. A nova organização será voltada para a assistência técnica, como agência de difusão de tecnologia. Será enxuta e seu papel consistirá em articular consultorias privadas para atuar em duas áreas prioritárias: agricultura de precisão e produção de hortifrutigranjeiros em áreas protegidas (estufas), além de pesquisas em biotecnologia, nas áreas de DNA, pecuária leiteira.
 
O campo de Libra
 
GGN – E a licitação do campo de Libra?
 
Dilma - Ainda não caiu a ficha geral sobre a próxima licitação do pré-sal, em 22 de outubro. Será licitado apenas um campo, o de Libra. Dentro da política da ANP (Agência Nacional de Petróleo), a Petrobras foi contratada para furar um poço. Fez a prospecção e constatou, inicialmente, uma capacidade potencial de 5 bilhões de barris equivalente de petróleo. Depois, pegaram os mapas de sísmica em 3D e enviaram para análises em Londres. Os últimos dados apontam para uma capacidade de 8 a 12 bilhões de bpe. É algo em torno de 2/3 do total das reservas brasileiras descobertas em toda sua história.
 
As análises iniciais indicam um preço bastante competitivo, na faixa de 40 dólares o barril. O gás de xisto dos Estados Unidos, tão falado, não sairá por menos de 80 dólares.
 
GGN – Recentemente fizemos em Porto Alegre um seminário sobre a indústria naval e houve relatos entusiasmados sobre os avanços no setor.
 
Dilma – Você não sabe a satisfação que é quando se percebe que um objetivo foi alcançado. Lembro-me que em 2003 o presidente Lula me chamou e disse que o Brasil já tinha sido um dos maiores produtores de navio nos anos 70. 
 
E que queria que voltasse a ser. Fui com a Graça Foster, titular de uma das secretarias do Ministério, até um estaleiro abandonado.
 
Era um areal imenso, a perder de vista, sem nada em cima. As pessoas caçoavam, diziam que seria impossível o Brasil construir navios, que estava muito acima da nossa capacidade. Ora, construir navios é a capacidade de transportar chapas e de soldar. Como, impossível?
 
Hoje, quando volto aos mesmos lugares, vemos guindastes gigantescos, o estado da arte, equipamentos sofisticados. E com o campo de Libra, vai ser um salto ainda maior. Haverá uma demanda gigantesca por equipamentos, de 14 a 17 plataformas, exigindo acelerar substancialmente a indústria naval.
 
GGN – Porque concessões e investimentos demoram tanto a deslanchar?
 
Dilma - O país paga um preço de 20 anos com austeridade fiscal e baixa projeção econômica e de investimento. Ninguém passa imune por isso.
 
As consequências foram a hipertrofia das estruturas de fiscalização em detrimento da execução. O funcionalismo fiscal tornou-se importante; o de execução perdeu status e incentivo. Esse fenômeno espalhou-se pelo setor privado, com os engenheiros de produção cedendo lugar aos engenheiros voltados para a área financeira e de gestão. Desapareceram as grandes empresas de consultoria de engenharia.
 
O planejamento de longo prazo retornou ao país em 2007, com o primeiro PAC (Plano de Aceleração do Crescimento). Ninguém mais fazia projetos, nem a União, nem os estados nem a iniciativa privada estavam preparados para enfrentar o desafio.
 
De lá para cá houve expressiva mudança qualitativa. Hoje em dia União, estados e iniciativa privada estão mais aparelhados, as empresas de projetos são bem melhores, com impacto no ritmo das obras. Houve modificações nos sistemas de contratação, reduzindo o tempo, melhoria na capacidade de planejar.
 
GGN – Quando as concessões deslancharão?
 
Dilma - Na segunda metade do ano, haverá um festival de licitações. Serão licitados 7.500 km de rodovias, aeroportos, ferrovias, o poço de Libra, gás em terra, armazéns, linhas de transmissão e geração e o TAV (Trem de Alta Velocidade). Os empresários internacionais já acordaram para isso.
 
Luis Nassif

No GGN
 

Estranhamento IV - ‘O que está em chamas em São Paulo é a visão oligárquica da cidade’.

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Créditos - Foto Brasil 247.
Para Paulo Moreira Leite, diretor da ISTOÉ em Brasília, “enquanto a parte de cima da cidade passou os últimos anos procurando transformar a definição de ciclovias em questão de alta relevância para os poderes públicos, a população debaixo estava preocupada com o preço da passagem de ônibus”


16 de Junho de 2013 às 11:06.


Estranhamentos - II: Ser gauche na vida*.

Texto de Cynara Menezes.


(não sei quem é o autor desta foto, mas acho perfeita para este artigo; reparem na camiseta do mendigo)


Publiquei este artigo em novembro de 2011, bem antes, portanto, do julgamento do mensalão. Acredito que continue válido para os dias que vivemos.


***


Ser gauche na vida


Li no jornal sobre uma entrevista de Carlos Drummond de Andrade em que ele dizia: “a esquerda, até agora, no Brasil, tem sido a parte mais errada da opinião pública, a que mais caiu em erros”. 

O poeta querido afirmava abominar a direita, mas defendia a tese de que é possível “não ser partidário da esquerda e ter um pensamento consequente, que é o pensamento socialista, que não é propriedade da esquerda”. 

Enfim: ser socialista não é propriedade da esquerda. Uau. Essa frase mexeu comigo.


O que o autor dos versos “Vai, Carlos! ser gauche na vida” quis dizer com isso? A entrevista foi dada na época da campanha das Diretas Já, em 1984. Drummond, aliás, era contra. Ele chegou a apoiar o golpe militar em 1964, depois se arrependeria ao ver que a coisa não era para o seu “paladar”. 

Ou seja, o poeta mineiro possuía um certo conservadorismo, mas detestava a direita, por um lado; por outro, desprezava a esquerda, mas admirava o socialismo. É possível?


Fica claro para mim que Drummond manifestava desagrado com o que a esquerda se tornara ao longo do tempo. Não se pode acusar a direita de haver queimado o filme da esquerda: a própria esquerda no poder se encarregou de fazer seu marketing negativo. 

Sob a égide do “socialismo”, surgiram ditaduras, se perseguiram opositores, se restringiram liberdades individuais, houve censura, tortura e corrupção. E, mais grave, não se sanaram as diferenças sociais. 

O poeta devia pensar: como estes “esquerdistas” se atrevem a usar o nome do socialismo em vão? Se vivesse hoje em dia, Drummond não pensaria diferente: a “esquerda” continua blasfemando contra o socialismo. São poucos os reais esquerdistas representando o povo dentro dos partidos ditos de esquerda. Esquerdismo no sentido de ser progressista e um pouco além.


Ser de esquerda é:

- não roubar nem deixar roubar; 

- é ser contra a exploração do homem pelo homem e de países por outros países;

- é ser a favor da igualdade entre raças e gêneros;  

- do Estado laico; 

- é ser contra o preconceito e a intolerância;  

- é ser a favor da natureza; 

- de que o povo coma bem e direito;  

- da justiça social;  

- é ser a favor de uma nova política para drogas e aborto; 

- da reforma agrária;  

- da moradia, 

- da educação e da saúde de qualidade para todos. 

Ser de esquerda é ser um defensor incorruptível da paz, da democracia e da liberdade. E ser de esquerda é, sim, dar menos importância ao dinheiro e mais à felicidade. (Que me perdoem os bons ricos, deles será o reino dos Céus.)


Vejo esta manifestação agora em Wall Street e sua interessante bandeira dos 99% que não têm nada contra o 1% que tem tudo, contra a ganância dos especuladores e dos bancos, as grandes corporações exploradoras e contra os corruptos. 

Pode ser minúsculo e ingênuo, não importa, mas é um movimento de esquerda, da verdadeira esquerda revolucionária, agora pacífica. É uma luta de Davi e Golias. Garotos com cartazes na mão contra o capitalismo, a fome, a opressão, as desigualdades, a injustiça. 

Não era isso que pregava o socialismo em seus utópicos primórdios? Mas tenho certeza que, se alguém chegar para muitos daqueles guris e chamá-los “esquerdistas”, eles irão torcer o nariz e fazer um muxoxo igual a Drummond.


A queda do muro de Berlim derrubou o socialismo naquele momento, mas se pelo menos suas concepções teóricas ainda são respeitadas, não se pode dizer a mesma coisa do esquerdismo. Hoje, o capitalismo também começa a ruir a olhos vistos, está fazendo água, não é “perfeito” como os neoliberais apregoavam.

As guerras que os países capitalistas promovem já não são suficientes para disfarçar o fracasso do sistema em si. Por uma coincidência cósmica, de novo é The Wall dando o pontapé de partida. The Wall Street. Claro que a derrubada do muro foi televisionada 24 horas por dia enquanto a ocupação de Wall Street é ignorada pela mídia. Mas quem é que esperava moleza?


Esta grande crise econômica que se avizinha deveria ser uma hora e tanto para repensar o “ser de esquerda”, no mundo e no Brasil. Se estiverem interessados, os que se dizem de esquerda, os que se sentem de esquerda e os que amam a esquerda podiam aproveitar a oportunidade para rever bandeiras, ideais, discursos, projetos e sobretudo rever a prática do que é a “esquerda”. Em vez de continuar a macular a expressão, torná-la digna de se associar ao termo “socialismo”. 

Vinte anos após o fim da União Soviética, a palavra “esquerda” segue em baixa no mundo. Entre os direitistas, tanto faz que pensem assim, mas o mais triste é que ela está em baixa mesmo entre os que são de esquerda e nem sabem disso. Como os poetas.


(artigo originalmente publicado no site de CartaCapital em 16/11/2011)

Publicado em 8 de janeiro de 2013.

Estranhamentos III - Tarifa zero, do PT de Erundina ao PT de Haddad.

A mudança do partido em relação à proposta de gratuidade nos transportes é reflexo da mudança do próprio PT, já bastante debatida em dez anos de gestão Lula-Dilma.


Por Thais Carrança


“Uma bandeira, às vezes, coloca uma utopia, mas que indica um problema que é, no caso, o peso do transporte no bolso do trabalhador.”  A declaração é do prefeito paulistano Fernando Haddad, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, publicada em 10 de junho. 

Após justificar a ação violenta da Polícia Militar em manifestações contra o aumento das tarifas dos transportes públicos na capital, o petista declarou ser uma “utopia” o que um dia foi proposta de governo do PT, durante gestão da prefeita Luiza Erundina (1989-1992).


A mudança do partido em relação à proposta de gratuidade nos transportes é reflexo da mudança do próprio PT, já bastante debatida em dez anos de gestão Lula-Dilma. 

O PT de Erundina, com o engenheiro Lúcio Gregori à frente da Secretaria Municipal dos Transportes, defendia a universalização do acesso aos serviços públicos. Assim, a tarifa se impunha como barreira, posto que excluía (e ainda exclui) todos aqueles que não podiam pagar por ela.


A solução pensada por Gregori e sua equipe foi então retirar a responsabilidade do custeio dos ônibus municipais do usuário direto e passá-la ao contribuinte, como ocorre com os demais serviços públicos, como saúde, educação e segurança pública. 

Para isso, seria criado um Fundo de Transportes, com recursos advindos de um aumento progressivo no Imposto predial territorial urbano (IPTU), numa lógica de que “quem tem mais paga mais, quem tem menos paga menos, quem não tem não paga”.


(Foto Movimento Passe Livre)
Erundina governou com minoria na Câmara Municipal e isolada dentro do próprio partido, após derrotar nas prévias internas o candidato favorito Plínio de Arruda Sampaio. Assim, o projeto de lei que criaria o Fundo de Transporte para financiar a tarifa zero não chegou sequer a ser votado.


Mais de dez anos depois, em 2005, surge um novo ator político: o Movimento Passe Livre (MPL). Após algum tempo defendendo a gratuidade nos transportes apenas para estudantes, o movimento vai além, e toma para si a proposta histórica do PT, passando a defender a tarifa zero universal.


Em 2006, militantes do MPL interpelam o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante evento em Aracaju (SE). 

Ao que Lula responde: “A idade é boa por isso. Quando a gente chega a ter 60 anos de idade, atinge a maturidade. Quando governa o Brasil, a gente tem seriedade. 

A gente não pode ficar entendendo que pode chegar um grupinho de pessoas e falar: ‘eu quero cinema de graça, eu quero teatro de graça, eu quero ônibus de graça’. Eu também quero tudo de graça, mas nós temos de trabalhar.” (Folha de S. Paulo, 16/03/06).


Estava ali explícita a ideologia do novo PT, orgulhoso de sua “nova classe média”: a do abandono da luta pela universalização do acesso aos serviços públicos para todos os cidadãos, substituída pela busca por uma ampliação do acesso a serviços privados para aqueles consumidores que possam pagar por isso.


É o que identificou o economista e ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcio Pochmann, em seu livro “Nova classe média?”. 

O candidato petista derrotado à prefeitura de Campinas (SP) escreveu em 2012: “O adicional de ocupados na base da pirâmide social reforçou o contingente da classe trabalhadora, equivocadamente identificada como uma nova classe média. 

Talvez não seja bem um mero equívoco conceitual, mas expressão da disputa que se instala em torno da concepção e condução das políticas públicas atuais. 

A interpretação de classe média (nova) resulta, em consequência, no apelo à reorientação das políticas públicas para a perspectiva fundamentalmente mercantil. 

Ou seja, o fortalecimento dos planos privados de saúde, educação, assistência e previdência, entre outros.”


Haddad é um político habilidoso e, apesar do equívoco ao justificar a ação violenta da PM, mostra-se aberto a dialogar com o movimento que ocupa as ruas da cidade pedindo a reversão imediata do aumento, rumo à tarifa zero. 

Nesse sentido, diz que estuda reduzir o preço das passagens dos ônibus municipais através da municipalização da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), que incide sobre combustíveis. No entanto, rebaixa a pauta do movimento ao declarar que o que está em discussão é “o peso do transporte no bolso do trabalhador”.


Não é. O que está em discussão é a universalização do acesso a um serviço que é direito da população, através da gratuidade para o usuário final. O PT de Haddad, o mesmo PT do Lula de 2006 em Aracaju, esqueceu-se do PT de Erundina. 

O PT da cidadania, da universalização de direitos e do serviço público está sendo enterrado pelo PT do consumo, do privilégio de quem pode pagar e do serviço mercantilizado.


Cabe ao movimento nas ruas mostrar que a tarifa zero não é uma “utopia”. É, sim, parte de um projeto de cidade para todos.


Thais Carrança é jornalista, foi militante do Movimento Passe Livre (MPL) e realizou, em 2011, o audio-documentário “Três reais é roubo!” (http://tarifazero.org/2011/06/21/tres-reais-e-roubo/ ), sobre a luta contra o aumento naquele ano.

As opiniões aqui expressas refletem exclusivamente a posição da autora e não têm nenhuma relação com o Movimento Passe Livre.

Link original desta Matéria: http://revistaforum.com.br/blog/2013/06/tarifa-zero-do-pt-de-erundina-ao-pt-de-haddad/

Estranhamentos - I: Os 20 centavos e a indignação da esquerda com o abandono de bandeiras pelo PT.


Cynara Menezes



Por que tantos jovens aderiram à campanha contra o aumento de tarifas de ônibus e não às manifestações convocadas, com o apoio maciço da mídia, contra a corrupção e os réus do mensalão? A resposta é simples: porque esse é um protesto de esquerda, com reivindicações caras à esquerda. 

A direita não está nem aí para o aumento das tarifas do transporte público, até porque ela anda de SUV. “São só 20 centavos”, foi a reação mais comum que vi deles nas redes sociais. 

Condenaram o movimento desde a primeira hora, e vão condenar ainda mais daqui para a frente, porque, em minha opinião, o aumento da tarifa em São Paulo foi apenas o detonador de uma insatisfação crescente nos últimos anos e que agora parece prestes a explodir. E que diz respeito não à direita, mas ao PT.


É uma indignação já antiga, que começou a brotar quando o PT chegou ao poder, em 2002, e passou a substituir o verbo “lutar” de suas origens por “acochambrar” – em nome da tal governabilidade, uma palavra cada vez mais suja. 

Em 2010, a esquerda brasileira se uniu em torno de Dilma Rousseff porque não queria que chegasse ao poder a corja de fundamentalistas que apoiava o outro candidato.

Mas, para nosso espanto e asco, eles estão hoje do lado do PT, influindo nos destinos da Nação. Pior ainda, junto com os ruralistas que sempre abominamos. 

Imaginem, quando poderíamos pensar que a direita ficaria feliz com o PT no poder, e a esquerda, contrariada? Parece um pesadelo.


No poder, o PT abandonou praticamente todas suas bandeiras históricas – a única que se mantém verdadeiramente de pé é a diminuição da pobreza, da desigualdade social e étnica. 

Todos aplaudimos as conquistas inegáveis neste setor. Mas a gente não quer só comida, lembram? Queremos todas as outras bandeiras de volta, também. 

Abandoná-las tem um custo eleitoral e, se o partido não resolver fazer algo a respeito, a fatura será cobrada em 2014.


As bandeiras que o PT abandonou:


– A moralidade. Não importa que seja caixa 2 ou outra coisa, o mensalão representou uma mancha num partido que se construiu em cima de um discurso ético e não para fazer “o que os outros também fazem”. Não houve mea culpa por parte do PT até hoje, e nem sequer uma reflexão conjunta sobre o ocorrido, apenas críticas à mídia e ao Supremo.


– Os direitos humanos. Este ano, o PT, ao optar pela presidência de outras comissões “mais importantes”, deixou de estar à frente de uma comissão que tradicionalmente sempre prezou, a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. Isso deu espaço para que se instalasse na presidência da Comissão, para horror da sociedade civilizada, um pastor fundamentalista com histórico de homofobia e racismo, Marco Feliciano. 

Esta semana, diante da selvageria da PM nas manifestações de quarta-feira em São Paulo, o governo federal, em vez de denunciar a violência policial, fazendo jus à história do PT, ofereceu “ajuda” a Geraldo Alckmin, do PSDB, contra um protesto de jovens. O prefeito petista da capital, Fernando Haddad, em lugar de se portar ao lado dos manifestantes como seria digno de um membro do partido que tem greves no DNA, se colocou ao lado do governador tucano e da truculenta polícia.


– A reforma agrária. Dilma Rousseff conseguiu ser pior que o governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso em famílias assentadas: apenas 21,9 mil, o menor número desde 1995. São dados do MST (Movimento dos Sem-Terra), velho parceiro de lutas do PT, não do “PIG”. 

É o MST quem diz que o governo de Dilma é um dos piores nos últimos 20 anos em desapropriação de terras para assentamentos. Não é à toa que a líder ruralista e senadora Kátia Abreu chegou a declarar que se sente próxima à presidenta “pela concordância de ideias” e por sua “compreensão da agropecuária brasileira”. Por favor, respondam: quem, na esquerda, votou no PT esperando ver uma ruralista contente?


– Os direitos LGBTs. A bandeira da diversidade, tão cara ao PT desde os seus princípios, inexiste hoje em dia no partido, que cedeu inteiramente à pressão dos pastores evangélicos. 

Os petistas se encontram tão reféns do fundamentalismo em nome da “realpolitik” –surrealpolitik, melhor dizendo–, que o ministro da Saúde telefonou ao pastor-deputado Marco Feliciano antes de decidir suspender uma campanha pelo uso de camisinhas entre prostitutas. 

E quem vai esquecer que o governo Dilma voltou atrás em lançar uma campanha anti-homofobia nas escolas só para atender ao obscurantismo dos políticos evangélicos? O apego ao poder deixou o valente PT medroso.


– Os índios. Dilma Rousseff, ao contrário de seus antecessores, nunca recebeu no Palácio do Planalto as lideranças indígenas. Só recentemente, após um índio ser morto pela Polícia Federal no Mato Grosso do Sul é que o secretário-geral da presidência, Gilberto Carvalho, recebeu lideranças (em um anexo do Palácio) e admitiu erros na condução da política indígena e na discussão em torno da usina de Belo Monte. 

A presidente Dilma é, até agora, a governante que menos concedeu terras a índios desde o governo FHC. Enquanto isso, no Mato Grosso do Sul, prosseguem os conflitos: na segunda-feira 12 outro índio foi morto em uma emboscada. É ou não é para um cidadão de esquerda ficar indignado?

Crédito - Foto Movimento Passe Livre

– Transporte público barato e de qualidade. Sim, o PT já acreditou nisso. Quando Luiza Erundina se tornou a primeira mulher prefeita de São Paulo, em 1988, o partido defendia a mesma tarifa zero que os meninos do MPL (Movimento Passe Livre) que estão nas ruas protestando, defendem (leia mais aqui). Por aí fica claro quem foi que mudou.


P.S.: [Estando você em São Paulo] Não deixe de ir à manifestação PACÍFICA programada para esta segunda-feira em São Paulo, às 17h, no Largo da Batata.

Irã resolveu enviar quatro mil soldados para Síria.

Irã resolveu enviar 4 mil soldados para Síria
Créditos da Foto EPA.

O governo iraniano resolveu enviar 4 mil efetivos do Corpo dos Guardiões da Revolução Islâmica para a Síria para apoiar o presidente Bashar al-Assad, comunicou hoje o britânicoThe Independent on Sunday.




Segundo este jornal, trata-se de “um primeiro dos contingentes militares” que Teerã pode enviar para a Síria.

Ainda de acordo com essa mídia, o envio da força militar para a Síria foi decidido na sexta-feira, ou seja, antes das eleições presidenciais.