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| Foto do Livro. |
Este é um dos melhores livros publicados nos últimos anos. Trata-se
de um registro fiel ou quase das peripécias dos irmãos Villas Bôas
durante o tempo em que realizaram trabalho de campo para a Fundação
Brasil Central. Uma narrativa épica que revela em detalhes como uma das
regiões mais importantes do Brasil na atualidade foi desbravada.
Até
a página 166 os principais personagens da narrativa são os sertanejos
que, superando todas as dificuldades fazem a expedição avançar. Eles
trabalharam com obstinação e agindo de maneira surpreendentemente
adequada às vicissitudes impostas pela natureza, pelos índios xavantes e
até mesmo pela incompetência administrativa que deixou a vanguarda sem
comida várias vezes.
O outro personagem da narrativa nesta
primeira parte do livro é a natureza, que forneceu não só obstáculos
(rios, alagados, chuvaradas, etc...) e insetos nocivos e pestilentos,
mas também auxílio indispensável (animais, frutas, peixes, aves, mel e
material para a construção dos abrigos temporários).
A expressão
natural dos sertanejos que participaram da expedição foi registrada com
riqueza de detalhes. As cantorias, ladainhas, casos, crendices,
repentes e outras modas improvisadas de viola foram transcritas pelos
autores. As histórias verdadeiras ou quase, contadas pelos peões que
ajudaram a levar adiante a expedição Roncador-Xingu, foram reproduzidas
com fidelidade.
O livro é um verdadeiro manancial de
informações sobre a terra incógnita e sobre o homem comum brasileiro que
fez o Brasil avançar para as profundezas do nosso território. Há
algumas referências literárias (Monteiro Lobato, Rui Barbosa) e
científicas (Humboldt), mas o que predomina na obra são as citações que
dizem respeito à cultura dos sertanejos da expedição. Nesta primeira
parte do livro os índios somente aparecem como elementos ocultos, que
tentam desencorajar a expedição infernizando as noites dos
expedicionários ou tentando interrompê-la colocando fogo na mata, nas
picadas ou nos acampamentos.
Até a página 166 o livro pode ser
comparado a obra “Os Sertões”. Mas há uma diferença fundamental entre
estes dois livros. Ao contrário de Euclides da Cunha, os irmãos Villas
Bôas conviveram intensamente com os sertanejos e registraram sua
peculiar forma de expressão. O autor de “Os Sertões” registrou os fatos
da guerra de Canudos pela lente dos seus preconceitos, dos quais foi se
libertando lentamente à medida que sua narrativa avançava.
A
segunda parte do livro, que vai da página 167 até o final tem por objeto
a natureza indômita e exuberante do Brasil Central, bem como os índios e
seus costumes. Nesta segunda parte da obra, os Villas Bôas registraram
os primeiros contatos que fizeram com várias tribos que habitavam as
regiões percorridas pela expedição Roncador Xingu. Algumas destas tribos
eram totalmente desconhecidas dos brasileiros, outras eram conhecidas
apenas em razão de contatos eventuais e violentos.
A obra faz um
inventario mais ou menos detalhado dos usos e costumes de várias etnias
indígenas contatadas pela expedição. As línguas utilizadas por várias
destas tribos eram então desconhecidas ou pouco estudadas, fato que
dificultou bastante a comunicação entre a expedição e os nativos.
Durante estes contatos, os Villas Bôas recolheram uma quantidade imensa
de artefatos que foram levados ao Museu do Índio no Rio de Janeiro (o
mesmo que um certo governador tentou destruir recentemente).
O relacionamento entre os membros da expedição e os indígenas foi, na
maioria das vezes, muito pacífico de parte a parte, mas a expedição
chegou a correr riscos em algumas oportunidades. É nesta parte do livro
que foram registradas as animosidades que existiam entre tribos rivais e
o trabalho da expedição para amenizá-las. Também é nesta parte do livro
que foram registrados, do ponto de vista dos Villas Bôas, o trabalho
dos cientistas brasileiros e dos jornalistas que acompanharam a
expedição Roncador-Xingu com o intuito de estudar os índios e seu
habitat.
Lamentavelmente a expedição acarretou uma imensa
mortandade de animais silvestres, muitos dos quais tiveram que ser
abatidos para servir de alimento. O Brasil Central foi desbravado à
custa do sangue de uma infinidade de veados, caititus, queixadas, tatus,
pacas, macacos, capivaras e onças. A quantidade de onças que foram
mortas pelos Villas Bôas e pelos seus auxiliares é assustadora. Muitas
delas, por falta de outro alimento, foram comidas apesar da carne de
onça não ser muito saborosa.
Em duas oportunidades o livro narra com requinte de detalhes estes
encontros que resultaram nas mortes das onças, numa delas os autores
lamentam o fato como que adotando o ponto de vista do infeliz felino.
Também é bastante poético o caso do burro de tropa que virou comida de
onça porque entrou pelo mato adentro correndo ao encontro do animal
feroz que rugia num grotão próximo de uma pista de pouso.
O
livro é uma mina de ouro para quem estiver interessado na história da
aviação no Brasil. A obra narra as dificuldades encontradas pelos
Villas Bôas para localizar e escolher locais adequados para os campos de
aviação que permitiriam à expedição ser abastecida pelos aviões.
Registra de maneira precisa o trabalhoso processo de desmatamento e
preparação das pistas, bem como a abertura de novas rotas aéreas. Os
acidentes mais ou menos graves com as aeronaves utilizadas pela Fundação
Brasil Central também foram narrados.
A história do jornalismo
no Brasil também entrou nesta obra de diversas formas. A expedição
Roncador-Xingu foi acompanhada por jornalistas em algumas oportunidades.
Durante muito tempo os Villas Bôas foram as únicas fontes jornalísticas
da expedição, fornecendo aos jornalistas pelo rádio informações sobre a
mesma para que as novidades fossem contadas ao 'respeitável público'
brasileiro. A obra também reproduz alguns textos jornalísticos que os
próprios Villas Bôas escreveram e que foram publicados em jornais na
época.
O livro narra muitas coisas marcantes ocorridas durante
os contatos que os Villas Bôas travaram com os índios. Citarei aqui
apenas três.
O primeiro diz respeito à alegria e surpresa dos índios,
que tinham uma dificuldade imensa para fazer fogo, ao ver um membro da
expedição acender uma fogueira usando uma caixa de fósforos. O que para
nós era e ainda é algo bastante banal se transforma em algo espetacular
para quem nunca havia tido contato com aquilo.
A segunda foi a forma
como os índios reagiram a uma eclipse do sol: os homens atirando flechas
acesas para o céu tentando acendê-lo novamente, as mulheres e crianças
se escondendo chorosas daquele evento pouco compreendido pelos
indígenas.
O terceiro refere-se ao caráter humanitário da economia
indígena: "... moitará é uma prática importante da cultura
xinguana. É um comércio todo ele na base da troca. E o valor dos objetos
negociados é calculado pelo tempo de trabalho despendido em cada um.
Cada tribo tem sua especialização em determinada atividade." (p. 332)
Um
pouco mais adiante, depois de terem detalhado o que cada tribo
fabricava e comercializava no moitará, os Villas Bôas relatam um
impressionante exemplo de "economia solidária" e de civilização. O
exemplo é tão bom, belo e justo, que deveria servir de exemplo para nós,
que nos dizemos civilizados e que no entanto praticamos variedades cada
vez mais irracionais e destrutivas de um capitalismo descrito pela
esquerda como "selvagem" (muito embora a expressão "capitalismo
selvagem" seja uma contradição em termos se levarmos em conta o exemplo
de "economia solidária" e altamente civilizada dada pelos selvagens).
Relatam os Villas Boas que: "Ontem assistimos aqui no pátio do posto a uma troca simbólica entre duas aldeias - kamaiurá e trumai.
Andavam os trumai numa série crise de alimentação. Nas suas roças, ainda novas, não havia uma só raiz de mandioca.
Na
troca-comércio os dois grupos se colocaram um em frente ao outro, e
entre eles ficou um terreirinho de um a dois metros quadrados,
previamente varrido.
O chefe trumai, nessa ocasião, expôs aos presentes a situação de
sua aldeia com respeito à alimentação. Dito isto, colocou no centro do
terreirinho, à guisa de troca, uma bolinha de massa de pequi (tamanho de
um grão de milho) e pediu em troca massa de mandioca.
Tamacu, o cacique
kamaiurá, incontinente a recolheu, dela tirou uma partícula minúscula e
a levou à boca, oferecendo-a em seguida aos de sua aldeia. Diversos
chefes de casa avançaram e imitaram o cacique. Momentos depois, as
mulheres daqueles que provaram do pequi colocaram no mesmo lugar - no
terreirinho - imensas cestas de pães secos de mandioca. Algumas centenas
de quilos.
Sem menos esperar, assistimos a uma belíssima
demonstração de solidariedade, e há que levar em conta ainda que esses
índios durante anos foram figadais inimigos." (A MARCHA PARA O OESTE,
Orlando Villas Bôas e Cláudio Villas Bôas, Companhia das Letras, 2012,
p. 333/334).
Citei este episódio com detalhes porque ele nos faz
pensar. Pouco desta civilidade e solidariedade indígenas são
encontradas hoje em dia no Brasil. Sob o comando dos governos Lula/Dilma
o Estado brasileiro tentou recriar e modernizar experiências como as
relatadas pelos irmãos Villas Bôas com os programas Bolsa Família (renda
para quem não a tem) e o Prouni (educação universitária pública para
quem não a teria). Os dois programas, entretanto, tem sofrido intensa
oposição de alguns setores que se consideram "mais civilizados" da
sociedade brasileira.
As palavras "civilidade" e "civilização",
como podemos ver são bastante ambíguas. Ambas podem ser encontradas
entre indígenas ágrafos e muito pobres quando da expedição
Roncador-Xingu (trumai e kamaiurá). Entre as camadas mais cultas e ricas
da sociedade brasileira ainda hoje predominam a mais abjeta barbárie.
Falta-lhes a humildade para aprender com os indígenas brasileiros a
capacidade de respeitar os outros seres humanos, inclusive aqueles que
são ou que foram considerados inimigos.
A MARCHA PARA O OESTE é
um livro maravilhoso, mas tem um defeito muito grande. Ele não tem um
índice detalhado que permita ao leitor ir direto às páginas em que
pessoas, coisas, animais, acidentes de terreno, episódios, etc... foram
referidos pelos autores. Em se tratando de um livro volumoso e que cobre
uma gama imensa de assuntos um bom índice seria indispensável,
especialmente para quem tiver que utilizá-lo para pesquisar assuntos
específicos. Esperamos que para a próxima edição esta falha seja
corrigida.