sábado, 19 de novembro de 2011

Artigo: Mídia ataca democracia interna do PT, por Márcio Cruz.

O PT nasceu como partido de esquerda e socialista. Para o PT, o socialismo ou será democrático ou não será socialismo.


Muitos de nós lutamos pela democracia, e depois de conquistada, nos mais de trinta anos construímos um processo de aprendizagem para exercê-la na forma direta e representativa, em maior ou menor grau. Na vida interna do PT (encontros, prévias e quatro congressos), ou nos espaços institucionais: prefeituras, mandatos legislativos, governos estaduais e federal.

Para os militantes e uma parte significativa do seu eleitorado a dinâmica de organização e democracia interna do PT é seu principal diferencial entre os partidos brasileiros. É esta dinâmica, ao contrário do que se imagina que dá musculatura e força política às lideranças petistas. A multiplicidade de posições políticas legitimamente organizadas no interior do PT em correntes e grupos é uma virtude para um partido democrático, não um defeito. 

Cada corrente ou grupo atua internamente no partido para organizá-lo no cotidiano. Estabelecendo relação com a sociedade organizada, os movimentos sociais, sindical, camponês e nos temas transversais como cultura, raça, gênero, juventude entre outros, e, em particular nas disputas eleitorais.

A influência de lideranças como o ex-presidente Lula no cenário das eleições de 2012 é um bom exemplo. Ninguém pode desprezar o papel que cumpre o ex-presidente. 

Ele mantém relação direta com a base social e política do país, no entanto, dentro do PT, suas articulações têm de ser validadas e referendadas pelos filiados/as. Não basta que diga que o candidato deve ser “A” ou “B”. No máximo atua para que tenha um único candidato, pois, se tiver mais de um, haverá Encontro ou Prévia no partido. 

O próprio Lula disputou prévias com o senador Eduardo Suplicy para ser candidato a presidência da República em 2002. Vale dizer, o Lula petista já teve posições que não foram referendadas por filiados/as em estados importantes. Esta é a força da democracia, seu exercício como meio e fim para a sociedade que queremos construir. 

Os meios de comunicação de massa oferecem um enquadramento diferente da vida interna do PT, não por desconhecerem. Nas reportagens e matérias sobre a definição de candidaturas para as eleições de 2012, desqualificam nossas instâncias de direção e insistem em afirmar na tese de que no PT quem decide nos municípios é o “cacique local” vereador ou não; nos estados é o deputado estadual, o senador, e nos temas nacionais em última análise é o ex-presidente Lula. 

É verdade que os interesses postos na sociedade se revelam na disputa interna do PT, como em qualquer partido. Interesses econômicos, em alguns casos privados, pessoais, personalistas, carreiristas; mas também interesses coletivos, legítimos, de construção partidária, de proposição e construção de políticas públicas, de debate político como aprendizagem da democracia que construímos hoje, para um amanhã.

Alguns definem a democracia como o território da articulação para o consenso dos interesses, por meio de acordos de entendimento. Fazer acordos faz parte da política, no entanto, certos acordos atuam contra a democracia e não em seu favor. Para aqueles que acreditam no socialismo democrático a democracia é outra coisa, é o espaço legítimo para dar relevo ao dissenso, é o cenário promovido para o exercício da diferença e aos diferentes, a menor fração tem a mesma legitimidade da maior para expor sua diferença. O consenso deve ser resultado do exercício da democracia, e não seu um produto artificial em seu nome. 

Por isso é fundamental que as lideranças do PT tenham que validar suas posições sobre política de alianças ou quem deve representar o partido nos processos eleitorais e que a regulamentação das relações internas do partido e seus métodos de decisão sejam aprovados em Congressos, Encontros ou Prévias (quando em Encontro os delegados devem ser eleitos na forma direta). 

A estratégia dos meios de comunicação é transformar o Lula num cacique tradicional, e o PT num partido igual aos demais. Não tenho dúvida que a legitimidade do Lula petista foi conquistada por sua capacidade de se colocar diante dos filiados e da sociedade, para legitimar suas posições no voto, por quem tem poder para fazê-lo, os filiados do PT primeiro, os eleitores depois.

Não podemos calar diante do ataque a democracia interna do PT, não é bom para o PT nem para o ex-presidente Lula. Lamentavelmente esta estratégia tem tido adeptos entre alguns dirigentes do partido, que promovem o “caciquismo lulista”. 

O 4º Congresso extraordinário do PT provou exatamente o contrário. Os mais de 1300 delegados/as presentes no Congresso ampliaram o poder dos filiados/as, a participação das mulheres, dos negros e da juventude em todas as instâncias do partido, dando destaque a paridade de gênero em todas as instancias e ao limite dos mandatos legislativos em três mandatos para Câmara federal e assembléias legislativas estaduais e a dois mandatos para o senado. Este é o antídoto contra o “caciquismo” machista enraizado nos partidos e no sistema eleitoral brasileiro.

Reconheço o papel das lideranças e dirigentes do PT, a extraordinária liderança do ex-presidente Lula, dos/as governadores/as, senadores/as, deputados/as federais, estaduais e da presidenta Dilma. Estão em lugar privilegiado na política, tem informações que o filiado comum não tem e atuam na construção de um cenário político favorável em 2012, em favor do projeto histórico do PT quanto legitimados pela direção do partido, ou, de projetos pessoais uma vez que nas eleições de 2014 são candidatos a primeira eleição ou a reeleição.

Devemos resistir aos ataques à democracia interna do PT como forma de manutenção da trajetória de luta pelo socialismo democrático. Se nos resignarmos na imagem de uma maioria numérica e artificial, que tudo sabe e tudo pode, se nos escondermos na sombra de lideranças burocráticas que se distanciam da relação presente da base e passam a exercer uma relação terceirizada por cabos eleitorais aí sim, no modelo tradicional de partido da recente democracia brasileira, perderemos a vitalidade do novo, do revolucionário, da ousadia, da esperança de que um novo mundo é possível, em especial o mundo socialista e democrático.

Marcio Cruz é mestre em ciências sociais/PUC-SP e ex-assessor Gabinete Pessoal da Presidência da Republica (2009/2010).

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