| Autor(es): Renato Janine Ribeiro |
| Valor Econômico - 26/03/2012 |
É ético um jornalista usar câmaras secretas para comprovar um crime
que, depois, ele irá denunciar? Não discuto, aqui, a legalidade de sua
ação, porque não tenho a formação jurídica necessária para me
pronunciar sobre as leis e jurisprudência cabíveis no caso.
Mas a
questão adquire relevância diante do fato que movimentou a sociedade
brasileira na semana que passou: a revelação, em imagens
incontestáveis, de uma rede de corrupção atuando justamente nos
hospitais - o que torna particularmente desumano o crime, porque está
sendo cometido contra pessoas especialmente vulneráveis.
Isso, além de
ser uma área em que cronicamente falta dinheiro, até porque os custos
com a saúde costumam subir mais que a inflação, em parte devido aos
grandes avanços que a medicina tem conhecido.
O que é flagrante é a falta de ética das pessoas que vimos no
"Fantástico" e no "Jornal Nacional". Os corruptos (vou chamá-los assim,
embora tecnicamente não o sejam, porque não são servidores públicos)
não mostraram nenhum pudor. Imaginando-se a salvo, foram francos.
Duas
afirmações me chocaram em especial.
Primeira, quando uma senhora diz
que está praticando "a ética do mercado". Mas o que ela faz não é nada
ético. A não ser, claro, que use "ética" num sentido apenas descritivo,
como quando se diz que a "ética do bandido" é matar quem o alcagueta,
ou que a "ética do machista" é assassinar a esposa suspeita de
adultério. Contudo, um dos ganhos dos últimos anos tem sido a redução
desse emprego da palavra "ética", só descritivo.
Cada vez mais,
entendemos a ética como prescritiva, normativa, como exigente - não
como a mera descrição de condutas praticadas em alguma área da ação
humana. Uma expressão de Claudio Abramo, frequentemente citada pelos
profissionais da imprensa, é significativa: "A ética do jornalista é a
mesma do marceneiro, de qualquer pessoa".
Educando os filhos para também serem corruptos.
Na verdade, até esperei, depois dessa frase sobre "a ética do
mercado", que "o mercado" reagisse de alguma forma. Se ela dissesse que
essa é a ética dos médicos, as associações não iriam protestar? É
claro que "o mercado" não é um sujeito. Aliás, sua riqueza e eficácia
estão, justamente, em ele não ser um sujeito único, mas uma rede em que
se cruzam e medem inúmeros sujeitos.
No entanto, aqui se coloca uma
questão crucial, sempre presente quando se trata do capitalismo. Brecht
tem a frase famosa: "O que é roubar um banco, em comparação com fundar
um banco?" O capitalismo sempre esteve assombrado pela diferença entre
o lucro obtido legítima e legalmente, e o que é extorsão, usura,
roubo. Na Idade Média, a igreja cristã condenava a usura, dificultando
as operações de financiamento. Por outro lado, com o capitalismo já
consolidado, no final do século XIX um grupo de grandes empresários
norte-americanos era chamado de "robber barons", barões ladrões, tal a
sua desonestidade.
Contudo, o mesmo capitalismo cresce graças a uma
ética extremamente forte, que Max Weber, num livro clássico, aproximou
do protestantismo. Na verdade, a distinção entre o lucro e a extorsão é
crucial para o capitalismo. Um dos desafios para ele funcionar, e em
especial para se tornar popular, é convencer a sociedade de que seu
compromisso ético - com a construção da riqueza pelo trabalho e o
esforço - supera seus deslizes, os quais serão rigorosamente punidos. Ou
seja, "o mercado" precisa reagir. O debate sobre esse caso não pode
ficar circunscrito à área política. "O mercado" foi injuriado, tem de
responder.
O outro ponto assustador foi quando um dos personagens gravados
disse que sempre ensinava a seus filhos a virtude da solidariedade.
Disse isso com outras palavras, mas ele considerava digno de educar
seus filhos na formação de quadrilha. Aqui, estamos diretamente na
ética do crime. Mas, se na frase da senhora sobre o mercado podíamos
ver alguma ironia ou resignação ("a vida como ela é"), na frase desse
senhor se ouvia algo mais grave: a educação dos filhos, a construção do
futuro segundo a ótica do criminoso.
Uma coisa é resignar-se ao mundo
como está e operar dentro dele. Outra, pior, é entender que ele não vai
melhorar e, portanto, a melhor educação que se deve dar aos pequenos é
ensiná-los a serem bandidos. Aqui, a tarefa afeta, em especial, os
educadores profissionais, como os professores, e a multidão de
educadores leigos, que são os pais e todos os que cuidam de crianças.
Mas, antes mesmo disso, ela passa por uma pergunta cândida: podemos
melhorar, em termos de sociedade, no que se refere ao respeito da lei e
dos outros? É possível convencermo-nos, e convencermos os outros, de
que seguir os preceitos éticos é absolutamente necessário? Ou viveremos
nas exceções? E isso diz respeito a todos nós.
Ocorreu-me, uma vez, que no Brasil a lei tem papel mais indicativo
do que prescritivo. Explico: todos concordamos que se deve parar no
sinal verde - e a grande maioria o faz. Mas a pressa, o fato de não
estar vindo um carro pela outra via, a demora no sinal "justificam"
eventualmente passar no sinal vermelho. A lei deixa de ser lei para se
tornar uma referência, apenas; ou, pior, algo que espero que os outros
respeitem absolutamente, mas que infringirei quando me achar
"justificado" a fazê-lo.
Guiando desse jeito, vários pais mataram os
próprios filhos - e isso continua acontecendo. Não precisaremos
fortalecer, enquanto sociedade, a convicção de que para um bom convívio
é preciso repudiar fortemente essas duas frases que, na sua euforia,
os dois personagens pronunciaram sem saberem que estavam sendo
gravados? Enquanto isso, obrigado aos repórteres que denunciaram esse
crime.
Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.
FONTE: http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2012/3/26/a-etica-dos-corruptos |
segunda-feira, 26 de março de 2012
A "ética" dos corruptos.
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