Renato Alves
Nunca
se prendeu tanto pedófilo no Distrito Federal. Foram 21 desde novembro.
A maioria por violentar fisicamente crianças e adolescentes. Mas de uma
forma mais silenciosa e impune, criminosos têm feito um número maior de
vítimas. Eles usam a internet para atrair, expor e constranger meninos e
meninas. A Polícia Civil do DF registra diversas maneiras de atuação
desse tipo de bandido, que mira pequenos brasilienses. Elas vão da troca
de material pornográfico a investidas por meio das redes sociais e até
propostas de compras de fotos de garotas nuas para exibição em sites
especializados.
Diferentemente
dos crimes cometidos pela maior parte dos pedófilos presos
recentemente, a pedofilia na internet tem provas de sobra, mas os
autores quase sempre permanecem livres. No universo virtual, os bandidos
se escondem em sites hospedados fora do país, atrás de nomes e
pseudônimos falsos. Por outro lado, costumam exibir a milhões de pessoas
fotos e vídeos de crianças nuas. No momento, uma das prioridades da
Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) é identificar e
colocar atrás das grades o dono de um blog com imagens de pelo menos 20
meninas brasilienses.
A
polícia começou a investigar o endereço eletrônico em janeiro, a partir
do depoimento de três adolescentes. Elas contaram ter sido assediadas
por um desconhecido, por meio de mensagens deixadas em uma rede social
da qual elas faziam parte. Todas afirmaram ter recebido uma proposta de
se tornarem famosas com a divulgação de suas fotografias. Mas o
agenciador exigiu poses sensuais das meninas, totalmente nuas. Ele
prometeu pagar R$ 25 por foto, enviada a um e-mail. Agentes acessaram o
blog e encontraram diversas imagens de meninas com menos de 18 anos.
Identificaram 20 moradores do DF.
Ao
tomar conhecimento que vinha sendo investigado, o pedófilo retirou o
domínio virtual do ar, mas, antes, escreveu uma mensagem desafiadora.
Afirmou que ficaria impune porque a polícia não teria como provar os
seus crimes. Agora, a DPCA conta com a ajuda da Divisão de Repressão aos
Crimes de Alta Tecnologia (Dicat) da Polícia Civil para identificar e
prender o dono do blog. "Não sabemos se o autor mora no DF nem de qual
computador recebe e envia as fotos. Por isso, precisamos da ajuda da
Dicat. Mas será uma questão de tempo chegar até ele", afirma a delegada
Valéria Martirena, chefe da DPCA.
Perfil indefinido. Martirena está à frente da delegacia especializada desde novembro. É a segunda vez que assume a unidade. Na primeira, ficou no comando de 2000 a 2005. Nenhum delegado do DF tratou de tanto caso de pedofilia quanto ela. "As denúncias pela internet têm aumentado, mas ainda são menores do que as domésticas. Elas que ocorrem em um ambiente que a vítima teoricamente estaria segura, como a casa e até a igreja. No entanto, a pedofilia na rede faz mais vítimas porque um criminoso pode expor um maior número e o seu crime se propagar e se perpetuar", observa.
Diferentemente
do que se acreditava por um período, o pedófilo não tem um perfil
definido. "Muitos pregavam que se tratava de senhores de idade e com
dinheiro para atrair as suas vítimas. Mas nós temos prendido de jovens
trabalhadores braçais a médicos e religiosos", ressalta a delegada. O
caso mais recente de um criminoso que agia na internet descoberto e
preso pela DPCA foi o de um pedreiro de Ceilândia. Agentes cumpriram o
mandado de prisão preventiva em 13 de dezembro. O homem é acusado de
integrar uma rede de pedofilia.
Ele
não chegou a cometer abusos físicos, mas trocava e-mails com outros
integrantes da rede e passava fotos de crianças e adolescentes mantendo
relações sexuais ou em posições sensuais, caracterizando o crime, de
acordo com a investigação. O pedreiro vinha sendo investigado desde
2008, mas os policiais tinham problemas em identificá-lo porque ele
usava uma identidade falsa na internet.
A
punição aos criminosos também é dificultada pela falta de comunicação
entre as polícias. Um médico do Hospital de Base do DF preso por
pedofilia em novembro de 2001 acabou livre por falta de provas.
Policiais federais flagraram o gastroenterologista, dentro da maior
unidade de saúde do DF, a repassar pela internet imagens de crianças
fazendo sexo com adultos. Ele era acusado de pertencer a uma rede
internacional de pedofilia, com conexões em cerca de cinco países. "Mas a
PF não sabia que o investigávamos há mais tempo. À época, não havia uma
lei que punia pedofilia na internet, por isso, pretendíamos flagrá-lo
fazendo fotos ou até abusando sexualmente de uma criança. Ele vinha
sendo acompanhado por meio de escutas telefônicas", conta a delegada
Martirena.
Imagens guardadas. Na maioria das vezes, a polícia conta com denúncias anônimas para iniciar uma investigação de pedofilia na internet. Mas a mais recente apuração bem-sucedida em todo o DF teve início por acaso. Em meados de janeiro, um pedestre encontrou um pen drive em uma rua de São Sebastião. Por curiosidade, o homem conectou o aparelho a um computador. Ao abrir os arquivos, veio a surpresa. O acessório tecnológico armazenava mais de mil imagens de crianças e adolescentes nuas, além de 18 vídeos em que um desconhecido violentava uma criança de 6 anos e duas adolescentes de 15 e 16 anos.
O
homem entregou o pendrive na 30ª Delegacia de Polícia (São Sebastião),
que não teve dificuldade em identificador o criminoso. O abusador que
aparece nas imagens é Alberto Mirando Sobrinho, 38 anos, preso na cidade
em 11 de fevereiro. Ele confessou os crimes e informou que os abusos
com as meninas mostradas nos vídeos começaram em 2004. Na casa dele, os
investigadores encontraram outros aparelhos de armazenamento de imagens,
além de vídeos, CDs e objetos comprados em sex shop.
Os
agentes também identificaram as duas adolescentes estupradas. Em
depoimento, Alberto entregou outro suposto integrante da rede de
pedofilia, o comerciante Nilton Hélio de Jesus, 40 anos. Na loja dele,
na Asa Norte, policiais apreenderam 11 discos rígidos de computadores,
duas máquinas fotográficas, um celular, um pendrive e vários CDs.
Já
na casa de Nilton, foram apreendidos um laptop e uma máquina
fotográfica. O comerciante se entregou à polícia na última
segunda-feira. Agora, peritos avaliam todo o material, na tentativa de
descobrir outras possíveis vítimas. Os homem detidos serão indiciados
por estupro de vulnerável, cuja pena varia de 8 a 15 anos de prisão.
A
polícia dinamarquesa liderou a ação por ser considerada mais experiente
na análise das redes de compartilhamento usadas para a troca do
material pornográfico. Somente na Dinamarca, foram indiciados 19 homens
entre 24 e 55 anos.
Memória
Mega operação na Europa
Uma
operação desencadeada em 16 de dezembro de 2011 pela Agência de Polícia
da Europa desmontou a maior rede de pedofilia já descoberta na
internet, com cerca de 70 mil integrantes e conexões em 30 países. Os
agentes prenderam, em um só dia, 112 dos 269 suspeitos identificados em
22 nações europeias.
Batizada
de Ícaro, a operação tinha como alvo "pessoas que trocavam as formas
mais extremas de material de vídeo, mostrando fundamentalmente bebês e
crianças pequenas submetidas a abusos sexuais", indicou a Europol em um
comunicado. Os investigadores identificaram 230 crianças abusadas.
O que diz a lei
Até
agosto de 2009, o Código Penal previa o crime de estupro no artigo 213 e
o atentado violento ao pudor no 214, além de pena de seis a 10 anos de
reclusão para cada um deles. Houve uma mudança na lei e as duas condutas
passaram para um único artigo e com a mesma pena. Diz o texto que
"constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção
carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato
libidinoso".
FONTE:http://www.exercito.gov.br/web/imprensa/resenha
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