Marília Moschkovich in Primavera Brasileira · 17 min read. [*nota
da autora, adicionada após muitos comentários e compartilhamentos
desviando um pouco o sentido do texto: este é um texto de esquerda].
Está tudo tão estranho, e não é à toa.
Um relato do quebra-cabeças que fui montando nos últimos dias. Aviso que o post é longo, mas prometo fazer valer cada palavra.
Começo
explicando que não ia postar este texto na internet. Com medo. Pode
parecer bobagem, mas um pressentimento me dizia que o papel impresso
seria melhor. O papel impresso garantiria maiores chances de as pessoas
lerem tudo, menores chances de copiarem trechos isolados destruindo todo
o raciocínio necessário.
Enquanto forma de comunicação, o texto
exige uma linearidade que é difícil. Difícil transformar os fatos, as
coisas que vi e vivi nos últimos dias em texto. Estou falando aqui das
ruas de São Paulo e da diferença entre o que vejo acontecer e o que está
sendo propagandeado nos meios de comunicação e até mesmo em alguns
blogs.
Talvez essa dimensão da coisa me seja possível porque
conheço realmente muita gente, de vários círculos; talvez porque sempre
tenha sido ligada à militância política, desde adolescente; talvez
porque tenha tido a oportunidade de ir às ruas; talvez porque pude estar
conectada na maior parte do tempo. Não sei. Mas gostaria de
compartilhar com vocês.
E gostaria que, ao fim, me dissessem se
estou louca. Eu espero verdadeiramente que sim, pois a minha impressão é
a de que tudo é muito mais grave do que está parecendo.
Tentei
escrever este texto mais ou menos em ordem cronológica. Se não foi uma
boa estratégia, por favor me avisem e eu busco uma maneira melhor de
contar.
Peço paciência. O texto é longo.
1. Contexto é bom e mantém a pauta no lugar.
Hoje
é dia 18 de junho de 2013. Há uma semana, no dia 10, cerca de 5 mil
pessoas foram violentamente reprimidas pela Policia Militar paulista na
Avenida Paulista, símbolo da cidade de São Paulo. Com a transmissão dos
horrores provocados pela PM pela internet, muitas pessoas se mobilizaram
para participar do ato seguinte, que seria realizado no dia 13. A pauta
era a revogação no aumento das tarifas de ônibus, que já são caras e já
excluem diversos cidadãos de seu direito de ir e vir, frequentando a
própria cidade onde moram.
No dia 13, então, aconteceu a primeira
coisa estranha, que acendeu uma luzinha amarela (quase vermelha de tão
laranja) na minha cabeça: os editoriais da folha e do estadão aprovavam o
que a PM tinha feito no dia 10 de junho e, mais do que isso,
incentivavam ações violentas da pm “em nome do trânsito” [aliás, alguém
me faz um documentário sensacional com esse título, faz favor? ].
Guardem essa informação.
Logo após esses editoriais, no fim do
dia, a PM reprimiu cerca de 20mil pessoas. Acompanhei tudo de casa, em
outra cidade. Na primeira hora de concentração para a manifestação foram
presas 70 pessoas, por sua intenção de participar do protesto. Essa
intenção era identificada pela PM com o agora famoso “porte de vinagre”
(já que vinagre atenua efeitos do gás lacrimogêneo).
Muitas pessoas
saíram feridas nesse dia e, com os horrores novamente transmitidos - mas
dessa vez também pelos grandes meios de comunicação, inclusive esses
dos editoriais da manhã, que tiveram suas equipes de reportagem
gravemente feridas -, muita gente se mobilizou para o próximo ato.
2. Desonestidade pouca é bobagem.
No
próprio dia 13, à noite, aconteceu a segunda “coisa estranha”. Logo no
final da pancadaria na região da Paulista, sabíamos que o próximo ato
seria na segunda-feira, dia 17 de junho. Me incluíram num evento no
Facebook, com exatamente o mesmo nome dos eventos do MPL, as mesmas
imagens, bandeiras, etc.
Só que marcado para sexta-feira, o dia
seguinte. Eu dei “ok”, entrei no evento, e comecei a reparar em posts
muito, mas muito esquisitos. Bandeiras que não eram as do MPL (que
conheço desde adolescente), discursos muito voltados à direita, entre
outros. O que estava ali não era o projeto de cidade e de país que eu
defendo, ou que o MPL defende.
Dei uma olhada melhor: eram três
pessoas que haviam criado o evento. Fucei o pouco que fica público no
perfil de cada um. Não encontrei nenhuma postagem sobre nenhuma causa
política. Apenas postagens sobre outros assuntos. Lá no fim de um dos
perfis, porém, encontrei uma postagem com um grupo de pessoas em alguma
das tais marchas contra a corrupção. Alguma coisa com a palavra
“Juventude”, não me lembro bem. Ficou claro que não tinha nada a ver com
o MPL e, pior que isso, estavam tentando se passar pelo MPL.
Alguém
me deu um toque e observei que a descrição dizia o trajeto da
manifestação (coisa que o MPL nunca fez, até hoje, sabiamente). Além
disso, na descrição havia propostas como “ir ao prédio da rede globo” e
“cantar o hino nacional”, “todos vestidos de branco”. O alerta vermelho
novamente acendeu na minha cabeça. Hino nacional é coisa de
integralista, de fascista. Vestir branco é coisa de movimentos em geral
muito ou totalmente despolitizados. Basta um mínimo de perspectiva
histórica pra sacar. Pois bem.
Ajudei a alertar sobre a
desonestidade de quem quer que estivesse organizando aquilo e meu alerta
chegou a uma das pessoas que, parece, estavam envolvidas nessa
organização (ou conhecia quem estava). O discurso dela, que conhece
alguém que eu conheço, era totalmente despolitizado. Ela falava em
“paz”, “corrupção” e outras palavras de ordem vazias que não representam
reivindicação concreta alguma, e muito menos um projeto de qualquer
tipo para a sociedade, a cidade de São Paulo, etc.
Mais um pouco de
perspectiva histórica e a gente entende no que é que palavras de ordem e
reivindicações vazias aleatórias acabam. Depois de fazer essa breve
mobilização na internet com várias outras pessoas, acabaram mudando o
nome e a foto do evento, no próprio dia 13 de noitão. No dia seguinte
transferiram o evento para a segunda-feira, “para unir as forças”,
diziam.
3. E o juiz apita! Começa a partida!
Seguiu-se um
final de semana extremamente violento em diversos lugares do país. Era o
início da Copa das Confederações e muitos manifestantes foram protestar
pelo direito de protestarem. O que houve em [São Paulo] mostrou que esse direito
estava ameaçado. Além disso, com a tal “lei da copa”, uma legislação
provisória que vale durante os eventos da FIFA, em algumas áreas
publicas se tornam proibidas quaisquer tipos de manifestações políticas.
Quer dizer, mais uma ameaça a esse direito tão fundamental numa
[suposta] democracia.
No final de semana as manifestações não
foram tão grandes, mas significativas em ao menos três cidades: Belo
Horizonte, Brasília e Rio de Janeiro. No DF e no RJ as polícias
militares seguiram a receita paulista e foram extremamente violentas. A
polícia mineira, porém, parecia um exemplo de atuação cidadã, que
repassamos, compartilhamos e apoiamos em redes sociais do lado de cá do
sudeste.
Não me lembro bem, mas acho que foi no intervalo entre
uma coisa e outra que percebi a terceira “coisa estranha”. Um pouco
depois do massacre na região da Paulista, e um pouco antes do final de
semana de horrores, mais um sinal: ficamos sabendo que uma conhecida
distante, depois do dia 13, pegou um ônibus para ir ao Rio de Janeiro.
Essa pessoa contou que a PM paulista parou o ônibus na estrada, antes de
sair do Estado de São Paulo. Mandaram os passageiros descerem e
policiais entraram no veículo. Quando os passageiros subiram novamente,
todas as coisas, bolsas, malas e mochilas estavam reviradas. A policial
perguntou a essa pessoa se ela tinha participado de algum dos protestos.
Pediu pra ver o celular e checou se havia vídeos, fotografias, etc.
Não
à toa e no mesmo “clima”, conto pra vocês a quarta “coisa estranha”:
descobrimos que, após o ato em BH, um rapaz identificado como uma das
lideranças políticas de lá foi preso, em sua casa. Parece que a nossa
polícia exemplar não era tão exemplar assim, mas agora ninguém
compartilhava mais. Coisas semelhantes aconteceram em Brasília, antes
mesmo das manifestações começarem.
4. Sequestraram a pauta?
Então
veio a segunda-feira. Dia 17 de junho de 2013. Ontem. Havia muita gente
se prontificando a participar dos protestos, guias de segurança
compartilhados nas redes, gente montando pontos de apoio, etc. Uma
verdadeira mobilização para que muita gente se mobilizasse. Estávamos
otimistas.
Curiosamente, os mesmos meios de comunicação
conservadores que incentivaram as ações violentas da PM na quinta-feira
anterior (13) de manhã, em seus editoriais, agora diziam que de fato as
pessoas deveriam ir às ruas. Só que com outras bandeiras. Isso não seria
um problema, se as pessoas não tivessem, de fato, ido à rua com as
bandeiras pautadas por esses grupos políticos (representados por esses
meios de comunicação). O clima, na segunda-feira, era outro. Era como se
a manifestação não fosse política e como se não estivesse acontecendo
no mesmo planeta em que eu vivo. Meu otimismo começou a decair.
A
pauta foi sequestrada por pessoas que estavam, havia alguns dias,
condenando os manifestantes por terem parado o trânsito, e que são parte
dos grupos sociais que sempre criminalizaram os movimentos sociais no
Brasil (representados por um pedaço da classe política, estatisticamente
o mais corrupto - não, não está nem perto de ser o PT -, e pelos meios
de comunicações que se beneficiam de uma política de concessões da época
da ditadura).
De repente se falava em impeachment da presidenta. As
pessoas usavam a bandeira nacional e se pintavam de verde e amarelo como
ordenado por grandes figurões da mídia de massas, colunistas de opinião
extremamente populares e conservadores.
As reações de militantes
variavam. Houve quem achasse lindo, afinal de contas, era o povo nas
ruas. Houve quem desconfiasse. Houve quem se revoltasse. Houve quem,
entre todos os sentimentos possíveis, ficasse absolutamente confuso.
Qualquer levante popular em que a pauta não eh muito definida cria uma
situação de instabilidade política que pode virar qualquer coisa. Vimos
isso no início do Estado Novo e no golpe de 1964, ambos extremamente
fascistas. Não quer dizer que desta vez seria igual, mas a história me
dizia pra ficar atenta.
5. Não, sequestraram o ato!
A passeata
do dia 17, segunda-feira, estava marcada para sair do Largo da Batata,
que fica numa das pontas da avenida Faria Lima. Não se sabia, não havia
decisão ainda, do que se faria depois. Aos que não entendem, a falta de
um trajeto pré-definido se justifica muito bem por duas percepções: (i) a
de que é fácil armar emboscadas para repressão quando divulga-se o
trajeto; e, (ii) mais importante do que isso, a percepção de que são as
pessoas se manifestando, na rua, que devem definir na hora o que fazer.
[e aqui, se vocês forem espertos, verão exatamente onde está a minha
contradição - que não nego, também me confunde]
A passeata
parecia uma comemoração de final de copa do mundo. Irônico, não?
Começamos a teorizar (sem muita teoria) que talvez essa fosse a única
referência de manifestações públicas que as pessoas tivessem, em massa:o
futebol. Os gritos eram do futebol, as palavras de ordem eram do
futebol. Muitas camisetas também eram do futebol. Havia inclusive uns
imbecis soltando rojões, o que não é muito esperto pois pode gerar muito
pânico considerando que havia poucos dias muita gente ali tinha sido
bombardeada com gás lacrimogêneo. Havia pessoas brincando com fogo.
[guardem essa informação do fogo também]
Agora uma pausa: vocês
se lembram do fato estranho número dois? O evento falso no facebook?
Bom, o trajeto desse evento falso incluía a Berrini, a ponte Estaiada e o
palácio dos Bandeirantes, sede do governo do Estado. Reparem só.
Quando
a passeata chegou ao cruzamento da Faria Lima com a Juscelino, fomos
praticamente empurrados para o lado direito. Nessa hora achamos aquilo
muito esquisito. Em nossas cabeças, só fazia sentido ir à Paulista, onde
havíamos sido proibidos de entrar havia alguns dias.
Era uma questão de
honra, de simbologia, de tudo. Resolvemos parar para descobrir se havia
gente indo para o lado oposto e subindo a Brigadeiro até a Paulista.
Umas amigas disseram que estavam na boca do túnel. Avisei pra não irem
pelo túnel que era roubada. Elas disseram então que estavam seguindo a
passeata pela ponte, atravessando a Marginal Pinheiros.
Demoramos
um tanto pra descobrirmos, já prontos pra ir para casa broxados, que
havia gente subindo para o outro lado. Gente indo à esquerda. Era lá que
preferíamos estar. Encontramos um outro grupo de pessoas conhecidas e
amigas e seguimos juntos. As palavras de ordem não mudaram. Eram as
mesmas em todos os lugares. As pessoas reproduziam qualquer frase de
efeito tosca de maneira acrítica, sem pensar no que estavam dizendo.
Efeito “multidão”, deve ser.
As frases me incomodaram muito. Nem
uma só palavra sobre o governador que ordenara à PM descer bala,
cassetete e gás na galera havia poucos dias. Que promove o genocídio da
juventude negra nessa cidade todos os dias, há 20 anos. Nem mesmo uma.
Os culpados de todos os problemas do mundo, para os
verde-amarelos-bandeira-hino eram o prefeito e a presidenta. Ou essas
pessoas são ignorantes, ou são extremamente desonestas.
Nem
chegamos à Paulista, incomodados com aquilo. Fomos para casa nos
sentindo muito esquisitos. Aí então conseguimos entender que aquelas
pessoas do evento falso no facebook tinham conseguido de alguma maneira
manobrar uma parte muito grande de pessoas que queria ir se manifestar
em outro lugar. A falta de informação foi o que deu poder para esse
grupo naquele momento específico. Mas quem era esse grupo? Não sei
exatamente. Mas fiquei incomodada.
6. O centro em chamas.
Quem
diria que essa sensação bizarra e sem nome da segunda-feira faria todo
sentido no dia seguinte? Fez. Infelizmente fez. O dia seguinte, “hoje”,
dia 18 de junho de 2013, seria decisivo. Veríamos se as pessoas se
desmobilizariam, se a pauta da revogação do aumento se fortaleceria.
Essa era minha esperança que, infelizmente, não se confirmou.
A partir
daqui são todos fatos recentes, enquanto escrevo e vou tentar
explica-los em ordem cronológica. Aviso que foram fazendo sentido aos
poucos, conforme falávamos com pessoas, ouvíamos relatos, descobríamos
novas informações. Essa é minha tentativa de relatar o que eu vi, vivi,
experienciei.
No fim da tarde, pegamos o metrô Faria Lima
lotadíssimo um pouco depois do horário marcado para a manifestação.
Perguntei na internet, em redes sociais, se o ato ainda estava na
concentração ou se estava andando, e para onde. Minha intenção era saber
em qual estação descer. Me disseram, tomando a televisão como
referencia (que é a referencia possível, já que não havia um único
comunicado oficial do MPL em lugar algum) que o ato estava na
prefeitura. Guardem essa informação.
Fomos então até o metrô
República. Helicópteros diversos sobrevoavam a praça e reparei na quinta
“coisa estranha”: quase não havia polícia. Acho que vimos uns três ou
quatro controlando curiosamente a ENTRADA do metrô e não a saída… Quer
dizer, quem entrasse no metro tinha mais chance de ser abordado do que
quem estava saindo, ao contrário do dia 13.
A manifestação estava
passando ali e fomos seguindo, até que percebemos que a prefeitura era
outro lado. Para onde estavam indo essas pessoas? Não sabíamos, mas
pelos gritos, pelo clima de torcida de futebol, sabíamos que não
queríamos estar ali, endossando algo em que não acreditávamos nem um
pouco e que já estávamos julgando ser meio perigoso.
Quando passamos em
frente à câmara de vereadores, a manifestação começou a vaiar e xingar
em massa. Oras, não foram eles também que encheram aquela câmara com
vereadores? O discurso de ser “apolítico” ou “contra” a classe política
serve a um único interesse, a história e a sociologia nos mostram: o dos
grupos conservadores para continuarem tocando a estrutura social
injusta como ela é, sem grandes mudanças. Pois era esse o discurso
repetido ali.
Resolvemos então descer pela rua Jandaia e tentar
voltar à Sé, pois disseram nas redes sociais que o ato real, do MPL,
estava no Parque Dom Pedro. Como aquilo fazia mais sentido do que um
monte de pessoas bem esquisitas, com cartazes bem bizarros, subindo para
a Paulista, lá fomos nós.
Outro fato estranho, número seis: no
meio da Rua Jandaia, num local bem visível para qualquer passante nos
viadutos do centro, um colchão em chamas. A manifestação sequer tinha
passado ali. Uma rua deserta e um colchão em chamas. Para quê? Que tipo
de sinal era aquele? Quem estava mandando e quem estava recebendo?
Guardamos as mascaras de proteção com medo de sermos culpados por algo
que não sabíamos sequer de onde tinha vindo e passamos rápido pela rua.
Cruzamos
com a mesma passeata, mais para cima, que vinha lá da região que fica
mais abaixo da Sé, mas não sabíamos ainda de onde. Atrás da catedral,
esperamos amigos. Uma amiga disse que o marido estava chateado porque
não conseguiu pegar trem na Vila Olímpia. Achamos normal, às vezes a
CPTM trava mesmo, daí essa porcaria de transporte e os protestos, etc.
pois bem. Guardem a informação.
Uma amiga ligou dizendo que
estava perto do teatro municipal e do Vale do Anhangabaú, que estava
“pegando fogo”. Imbecil que me sinto agora, na hora achei que ela estava
falando que estava cheio de gente, bacana, legal. [que tonta!]
Perguntei se era o ato do MPL, se tinha as faixas do MPL. Ela disse que
sim mas não confiei muito. Resolvemos ir ver.
[A partir daqui todos os fatos são “estranhos”. Bem estranhos.]
O
clima no centro era muito tenso quando chegamos lá. Em nenhum dos
outros lugares estava tão tenso. Tudo muito esquisito sem sabermos bem o
quê. Os moradores de rua não estavam como quem está em suas casas. Os
moradores de rua estavam atentos, em cantos, em grupos. Poucos dormiam.
Parecia noite de operação especial da PM (quem frequenta de verdade a
cidade de São Paulo, e não apenas o próprio bairro, sabe bem o que é
isso entre os moradores de rua).
Só que era ainda mais estranho:
não havia polícia. Não havia polícia no centro de São Paulo à noite. No
meio de toda essa onda. Não havia polícia alguma. Nadinha de nada, em
lugar nenhum.
Na Sé, descobrimos mais ou menos o caminho e fomos
mais ou menos andando perto de outras pessoas. Um grupo de franciscanos
estava andando perto de nós, também. Vimos uma fumaça preta. Fogo. MUITO
fogo. Muito alto. O centro em chamas.
Tentamos chegar mais perto
e ver. Havia pessoas trepadas em construções com latas de spray
enquanto outros bradavam em volta daquela coisa queimando que não
conseguíamos identificar. Outro colchão? Os mesmos que deixaram o
colchão queimando na Jandaia? Mas quem eram eles?
De repente
algumas pessoas gritaram e nós, mais outros e os franciscanos, corremos
achando que talvez o choque estaria avançando. Afinal de contas, era
óbvio que a polícia iria descer o cacete em quem tinha levantado aquele
fogaréu (aliás, será q ela só tinha visto agora, que estava daquele
tamanho todo?). Só que não.
Na corrida descobrimos que era a
equipe da TV Record. Estavam fugindo do local - a multidão indo pra cima
deles - depois de terem o carro da reportagem queimado. Não, não era um
colchão. Era o carro de reportagem de uma rede de televisão.
O olhar no
rosto da repórter me comoveu. Ela, como nós, não conseguia encontrar
muito sentido em tudo que estava acontecendo. Ao lado de onde
conversávamos, uns quatro policiais militares. Parados. Assistindo o
fogo, a equipe sendo perseguida… Resolvemos dar no pé que bobos nós não
somos. Tinha algo muito, mas muito errado (e estranho) ali.
Voltamos
andando bem rápido para a Sé, onde os moradores de rua continuavam
alertas, e os franciscanos tentavam recolher pertences caídos pelo chão
na fuga e se organizarem novamente para dar continuidade a sua missão.
Nós não fomos tão bravos e decidimos voltar para nossas casas.
7. Prelúdio de um… golpe?
No
metrô um aviso: as estações de trem estavam fechadas. É, pois é, aquela
coisa que havíamos falado antes e tal. Mal havíamos chegado em casa,
porém, uma conhecida posta no facebook que um amigo não conseguiu chegar
em lugar nenhum porque algumas pessoas invadiram os trilhos da CPTM e
várias estações ficaram paradas, fechadas. Não era caos “normal” da
CPTM, nem problemas “técnicos” como a moça anunciava. Era de propósito.
Seriam os mesmos do colchão, do carro da Record?
Lemos, em
seguida, em redes sociais, que havia pessoas saqueando lojas e
destruindo bancos no centro. Sabíamos que eram o mesmos. Recebi um
relato de que uma ocupação de sem-teto foi alvo de tentativa (?) de
incêndio. Naquele momento sabíamos que, quem quer que estivesse por trás
do “caos” no centro, da depredação de ônibus na frente do Palácio dos
Bandeirantes no dia anterior, de tentativas de criar caos na prefeitura,
etc. não era o MPL. Também sabíamos que não era nenhum grupo de
esquerda: gente de esquerda não quer exterminar sem-teto. Esse plano é
de outro grupo político, esse que manteve a PM funcionando nos últimos
20 anos com a mesma estrutura da época da ditadura militar.
Algum
tempo depois, mais uma notícia: em Belo Horizonte, onde já se fala de
chamar a Força Nacional e onde os protestos foram violentíssimos na
segunda-feira, havia ocorrido a mesma coisa. Depredação total do centro
da cidade, sem nenhum policial por perto. Nenhunzinho. Muito estranho.
Nessa
hora eu já estava convencida de que estamos diante de uma tentativa
muito séria de golpe, instauração de estado de exceção, ou algo do tipo.
Muito séria. Muito, muito, muito séria. Postei algumas coisas no
facebook, vi que havia pessoas compartilhando da minha sensação.
Sobretudo quem havia ido às ruas no dia de hoje.
Um pouquinho
depois, outra notícia: a nova embaixadora dos EUA no Brasil é a mesma
embaixadora que estava trabalhando no Paraguai quando deram um golpe de
estado em Fernando Lugo.
Me perguntaram e eu não sei responder
qual golpe, nem por que. Mas se o debate pela desmilitarização da
polícia e pelo fim da PM parece que finalmente havia irrompido pelos
portões da USP, esse seria um ótimo motivo.
Nem sempre um golpe é um
golpe de Estado. Em 1989 vivemos um golpe midiático de opinião pública,
por exemplo. Pode ser que estejamos diante de outro. Essa é a impressão
que, ligando esses pontos, eu tenho.
Já vieram me falar que supor
golpe “desmobiliza” as pessoas, que ficam em casa com medo. De forma
alguma. Um “golpe” não são exércitos adentrando a cidade. Não
necessariamente. Um “golpe” pode estar baseado na ideia errônea de que
devemos apoiar todo e qualquer tipo de indignação, apenas porque “o povo
na rua é tão bonito!”.
Curiosamente, quando falei sobre a
manifestação do dia 13 com meus alunos, no dia 14, vários deles me
perguntaram se havia chances de golpes militares, tomadas de poder,
novas ditaduras. A minha resposta foi apenas uma, que ainda sustento
sobre este possível golpe de opinião pública/mídia: em toda e qualquer
tentativa de golpe, o que faz com que ela seja ou não bem-sucedida é a
resposta popular ao ataque.
Em 1964, a resposta popular foi o apoio e
passamos a viver numa ditadura. Nos anos 2000, a reposta do povo
venezuelano à tentativa de golpe em Chávez foi a de rechaço, e a
democracia foi restabelecida.
O ponto é que depende de nós.
Depende de estarmos nas ruas apoiando as bandeiras certas (e há pessoas
se mobilizando para divulgar em tempo real, de maneira eficaz, onde está
o ato contra o aumento da passagem, porque já não podemos dizer que é
apenas “um” movimento, como fez Haddad em sua entrevista coletiva).
Depende de nos recusarmos a comprar toda e qualquer informação. Depende
de levantarmos e irmos ver com nossos próprios olhos o que está
acontecendo.
Se essa sequencia de fatos faz sentido pra você, por
favor leia e repasse o papel. Faça uma cópia. Guarde. Compartilhe. Só
peço o cuidado de compartilharem sempre integralmente. Qualquer pessoa
mal-intencionada pode usar coisas que eu disse para outros fins. Não
quero isso.
Quero apenas que vocês sigam minha linha de raciocínio e me digam: estamos mesmo diante da possibilidade iminente de um golpe?
Estou louca?
Espero sinceramente que sim. Mas acho que não.
Marília Moschkovich. Socióloga,
militante feminista, escritora, vez em quando jornalista. Também
publico no “Mulher Alternativa” e no “Outras Palavras”. @MariliaMoscou
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EM TEMPO: 1 - [Obama nomeia Liliana Ayalde como nova embaixadora dos EUA no Brasil. O
presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, nomeou Liliana Ayalde,
diplomata com uma longa trajetória na agência de cooperação do país,
nova embaixadora para o Brasil, anunciou nesta sexta-feira a Casa
Branca. Assim que for confirmada pelo Senado americano, Ayalde
substituirá Thomas A. Shannon, que ocupa o posto desde o final de 2009. A
Casa Branca anunciou em comunicado a nomeação de Ayalde junto com a de
outros cinco embaixadores (Espanha, Alemanha, Dinamarca, Etiópia e a
Santa Sé). Ayalde tem extensa experiência dentro da agência de
cooperação USAID, na qual trabalhou durante 24 anos e pela qual foi
diretora de missão em Nicarágua (1997-1999), Bolívia (1999-2005) e
Colômbia (2005-2008). Nascida em Baltimore em 1956, com raízes latinas e domínio do idioma
português, ela trabalhou como embaixadora dos Estados Unidos no Paraguai
de 2008 a 2011. http://noticias.terra.com.br/mundo/obama-nomeia-liliana-ayalde-como-nova-embaixadora-dos-eua-no-brasil,b6cde81e2424f310VgnCLD2000000ec6eb0aRCRD.html]
2 - O embaixador do EUA no Paraguai na época do Golpe do contra o Presidente Fernando Lugo era o embaixador norte-americano James Thessin.
Em tempos acrescentados por: Chico Barros.